Translate

sábado, 13 de outubro de 2012

A importância da interpretação profética correta - parte 1


Que diferença faz na vida do cristão hoje se o chifre é Antíoco ou Roma ou outra entidade? Identificar corretamente quem ataca o santuário de Deus e Seu povo é importante pois a profecia alerta para um poder que deturparia a verdade e a salvação oferecida por Deus. De acordo com o livro de Daniel esse poder mudaria os tempos e as leis divinas (7:25) e jogaria a verdade por terra (8:12). Esse ataque incluiria principalmente Deus, Sua morada (santuário) e Seus adoradores (santos) (8:10-12).

Vamos por partes então. O ataque aos santos implica questão de identidade. Na Bíblia Deus é santo e tudo aquilo que entra em contato transformador positivo com Deus (ver Ex 3, Levíticos, Is 6). Ser santo é estar perto de Deus, e ser transformado por Sua glória. De acordo com Levíticos 19, o Santo de Israel convida Seu povo para ser santo porque Ele é santo (v.3). Santidade é agir como Deus. Nesse capítulo Deus explicita como isso é demonstrado:

1)     Não adorando ídolos (v.4)
2)     Em negócios pessoais nunca maltratar (v.9-10)
3)     Não maltrata os oprimidos e estrangeiros mas ajudá-los (v.9-10, 13-14, 33, 34)
4)     Falando sempre a verdade e praticando a justiça (v.11, 15-16)
5)     Comendo aquilo que é adequado para saúde (v.23-26)
6)     Manter pureza sexual e mental (v.17,29) 
7)     Não se envolver com espiritismo ou contato com os mortos (v.26, 28, 31).
8)     Guardar o sábado e reverenciar o santuário (v.30)

Nessa lista vemos que ser como Deus implica em ações bem positivas. Assim como Deus livrou Israel quando cativo e oprimido no Egito, os Israelitas como santos do Senhor deveriam libertar outros seres humanos em situações semelhantes. Assim como Deus deu abundância em bens para Israel eles deveriam compartilhar com outros menos afortunados. Ser como Deus é algo muito bom.

Enquanto isso nas profecias o inimigo de Deus surge apenas para destruir, enganar e maltratar os seres humanos. O contraste é nítido. Deus deseja vida com qualidade enquanto Satanás deseja destruir os santos criados por Deus. Identificar então quem é esse inimigo divino é fundamental pois escolhemos um estilo de vida ao seguirmos um ou outro. O ataque aos santos também implica que aqueles que escolhem viver em santidade ou guardarem as leis de Deus serão perseguidos (Apoc 12:17). Prosperidade nessa terra não significa santidade. Ou seja, Deus anuncia previamente na profecia que viria um poder que tentaria destruir a vida daqueles a quem Ele procura salvar. E isso nos leva ao segundo ponto, o ataque ao santuário.

É no santuário e no sistema de sacrifício instituído por Deus que aprendemos que Ele se sacrificou pela humanidade pecadora que merecia morrer, ao tomar sobre Si a iniquidade minha e sua (Lev 1-6, Isa 53, Jo 1:29, Heb 5-8). Ao atacar o santuário de Deus o chifre usado por Satanás tenta destruir o caráter de amor de Deus e a salvação da humanidade em Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Entender a Jesus é vida eterna (Jo 17:3) assim ao deturpar o caráter de Deus demonstrado no santuário Satanás tenta remover minha única oportunidade de salvação do pecado e da morte.

Identificar o chifre da profecia então é uma questão não só de identidade (identificar quem é santo) mas de vida ou morte (quem está no santuário). Satanás tem deturpado o caráter de Deus de várias formas. Mas as maiores delas estão relacionado com Sua lei. Não é surpresa que Deus anuncia que o chifre atacaria a Lei divina e a verdade.

Vemos acima que a Lei ensina que obedecer a Deus é viver em santidade o que implica justiça e verdade. Aqueles que pecam ou agem sem amor trazem para si o mal e são punidos com a morte (Rom 6:23). Sabendo disso Satanás por meio do chifre da profecia tem engando a muitos causando sérias injustiças na história. Sobre essas injustiças e específicos ataques iremos refletir no próximos texto.

O que concluímos aqui é que identificar o chifre da profecia é uma questão bem pessoal e caso de vida e morte. Saber quem é o inimigo dos santos permite ao estudante da profecia se auto identificar como Deus ou como o diabo. Assim entender corretamente a profecia é uma questão de identidade. Sabendo das detrupações Satânicas Deus anuncia a Daniel pois avista o perigo antes dele ocorrer. A importância do estudo profetico é previnir o mal e se esconder em Deus.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Stationery card

Blissful Snowflakes Holiday Card
holiday party invitations and thank you cards by Shutterfly.
View the entire collection of cards.

sábado, 15 de setembro de 2012

quem é o chifre pequeno? - parte 2


O blog anterior resumiu a questão interpretativa de como indentificar o chifre pequeno em Dan 8. O debate maior é linguístico e relacionado a origem do chifre no v.9. Como já vimos, Dan 8:9 apenas diz “de um deles”. Mas a que esse pronome “deles” se refere? Há diversas sugestões. Os teólogos Adventistas Gehard Hasel e William Shea argumentam que como esse pronome (Heb.-hem = deles) é masculino ele se refere a um antecedente masculino, que no v.8 seria os “ventos do céus” (Heb.-ruohot [feminino] hashamaim [masculino]), e não aos chifres (Heb.-qeren [feminino]).

Outros Adventistas historicistas argúem que o pronome (Heb.-hem = deles) pode ser usado tanto no masculino como no feminino. Martin Proebstle, por exemplo, argumenta que a construção substantiva construto-absoluto “ventos dos céus” do v.8 é liderada pelo substantivo feminino e deve ser considerada feminina, caindo em dissonância com o argumento do gênero masculino de Hasel e Shea. Outro argumento apresentado por Hasel é que na segunda parte do v.8, a palavra “chifres” (qeren) não aparece no hebraico (“em seu lugar saíram quatro notáveis”), sugerindo que o pronome do v.9 se refere ao objeto explicitado anteriormente, os ventos.

Proebstle rejeita essa ideia dizendo que os chifres estão implícitos no texto e por isso o intérprete não deveria fazer muito caso sobre essa ausência. No entanto, Hasel afirma que essa ausência é uma forte indicação para entender a descrição seguinte (v.9) e identificar a procedência do chifre que atacaria os céus. Apesar de Proebstle argumentar que a sintaxe desses versos pode ser explicada de outra forma, os argumentos de Shea e Hasel, para mim, continuam válidos.

Isso porque eles afirmam que há um par no final do v.8 que pode ser considerado como feminino-masculino (ventos dos céus), e no início do v.9 há a mesma sequência de gênero feminino-masculino (“de um deles” – Heb.- ha’ahat mehen). Para mim, o argumento mais convincente é ainda o do antecedente mais próximo. Isso ocorre até em português. O pronome normalmente se refere ao objeto (substantivo) mais próximo dele. Nesse caso, em Dan 8:8, o mais próximo antecedente é “ventos dos céus”.

Se assim for interpretado, o poder do v.9 não é um dos 4 chifres do v.8 (O Livro), nem se origina dos quatro poderes/chifres gregos (ARA). A interpretação preterista que o  identifica como Antíoco IV Epifânio então não se coaduna com o texto e nem com a história. O historicismo, porém, ao enxergar o império Romano vindo de um dos ventos, faz sentido ao texto e é coerente com as visões paralelas no livro de Daniel. O chifre vem do ocidente (Roma estava a oeste de Jerusalém e Babilônia) e se expande “para o sul [Egito], para o oriente [Iraque; Irã], e para a terra gloriosa [Israel]”(v.9). Antíoco não avançou para essas regiões descritas na visão, e nem veio do oeste.

E tem mais, como chifres em Daniel simbolizam reis e/ou reinos (7:24, 8:21-23), a interpretação preterista aplicada a Antíoco não faz sentido visto que Antíoco não foi o 5º rei de sua dinastia, nem o 11º se for argumentado a partir dos 10 chifres de Dan 7 que aparecem antes do chifre pequeno. Apenas o Império Romano se encaixa nessas características. Por que é tão importante identificar quem é o chifre que começa pequeno e ataca a Deus?  Isso refletiremos no próximo texto.

sábado, 8 de setembro de 2012

quem é o chifre pequeno - parte 1


      5)     O cifre “pequeno” origina de um dos 4 chifres ou de um dos 4 ventos? E qual a diferença?(Dan 8:8-9)

Já vimos brevemente que existem interpretações diferentes sobre profecias apocalípticas. Em particular, essa questão em Daniel 8 traz à tona a diferença entre preterismo e historicismo. Enquanto o historicismo interpreta o quarto reino de Dan 7 como o Império Romano em suas duas fases (pagã e papal), o preterismo vê o poder representado pelo chifre que começa pequeno e persegue o povo de Deus como Antíoco IV Epifânio. Um dos maiores argumentos para tal diferença é Dan 8:8,9 sobre a origem do chifre pequeno.

É importante salientar aqui que até as traduções revelam tendências interpretativas sobre a profecia de Daniel. A de João Ferreira de Almeida Revista Atualizada (ARA) traduz o verso 9 da seguinte forma: “de um dos chifres saiu o chifre pequeno”. A João Ferreira de Almeida Atualizada e a Nova Versão Internacional diferentemente traduzem: “de um deles saiu um chifre pequeno”. Outra tradução, O Livro, já diz: “um destes chifres, crescendo devagar a princípio...”

Note que as traduções O Livro e a ARA são interpretações do texto hebraico, pois o v.9 diz apenas “de um deles”, o que as traduções Atualizada (AA) e a NVI mantêm. Mesmo assim, mantendo uma tradução mais literalística do texto hebraico, a questão continua. O que significa “de um deles”? De onde vem o chifre que ataca o céu, Deus e o santuário? Determinar tal poder é importante visto que suas atividades afetam o povo de Deus. Então qual interpretação possui mais evidências textuais e históricas?

Antes de avaliarmos as diferenças interpretativas destaco que tanto o historicismo como o preterismo interpretam Dan 8 num contínuo histórico. Isso porque o próprio anjo na segunda parte do capítulo assim interpreta. O carneiro representa a Média e os Persas (v.20), o bode a Grécia, o chifre notável o seu primeiro rei e os próximos 4 chifre como quatro reinos subsequentes. Então não há dúvidas historicamente que os gregos vieram após os Medo-Persas com um grande rei, Alexandre o Grande, e logo após sua morte o seu império foi dividido entre quatro generais que fundaram quatro sub-impérios (Cassandro, Lisímaco, Ptolomeu e Seleucida).

A diferença entre o preterismo e o historicismo é a relação entre Dan 8:8,9 com o chifre que sai do quarto animal em Dan 7. Como há uma forte relação entre ambas as visões elas devem ser consideradas juntas. Em Dan 7 também há uma descrição de impérios “mundiais” representados por animais/bestas. Eles são visto em sequência representando linearidade histórica. Tanto o leopardo em Dan 7 e o carneiro em Dan 8 possuem quatro protuberâncias (cabeças/asas e chifres). Em seguida, nos dois capítulos, aparece um chifre que cresce para atacar o povo de Deus até o tempo do juízo.

Continuando o paralelismo, nos dois capítulos os poderes crescem em força até atingir a Deus. Grécia foi mais forte que os Medo-Persas, e Roma mais forte que a Grécia. Há uma progressão de poder assim também como uma separação/distinção de reinos. Quando os preteristas identificam o último chifre como Antíoco IV eles não são fiéis à descrição das visões nem a história. Antíoco não possuiu um reino distinto dos gregos (Alexandre o Grande) nem foi maior que o seu fundador. Mas o império Romano foi.

Sobre a distinção de poder, as duas visões possuem uma sequência que sugere essa distinção de poder: “eu vi” + descrição do símbolo + direção + poder. Em Dan 8 essa sequencia distingue o carneiro do bode e em Dan 7 os quatro poderes da Babilônia (leão), Medo-Pérsia (urso), Grécia (leopardo) e Roma (besta espantosa). Porém não há nenhuma visão em Dan 8 para descrever o chifre pequeno no v.9. (Isso foi identificado por Martin Proebstle em sua tese de PhD em Antigo Testamento na Andrews University – Truth and terror). Estaria então os preteristas corretos ao identificarem o v.9 como uma continuação do poder anterior? (continua no próximo post)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Como interpretar tempo em profecia - parte 2


Um dos argumentos do historicismo é que o próprio livro de Daniel sugere essa interpretação. O autor de Daniel usa duas palavras para descrever tempo. Em todo o livro quando descreve sua posição no tempo e espaço ele usa o termo comum em hebraico/aramaico - shana/shena (ano, e.g.1:1, 2:1, 7:1, 8:1, 9:1, 11:1). Na tradução judaica grega (LXX – septuaginta) essa palavra é traduzida por etos, a expressão comum para um ano cíclico das estações.

Porém, quando o conteúdo transcede a realidade do profeta em visão ou sonho, esse vocábulo não é mais usado. Tempo simbólico nunca é shana/shena. Expressões não usuais são escolhidas para descrever o tempo apocalíptico, como “tardes-manhãs”, “dias”, “tempo(s)” com números grandes, ao invés de usar “anos” (shana/shena).

Em Daniel 7 é usada a palavra yidan, que descreve em aramaico uma porção de tempo definida ou não (e.g. Dan 2:8, 7:12) ou uma circunstância (2:9,21). Note que no capítulo 4 esse vocábulo descreve um tempo literal e real, quando o rei Nabucodonossor permanece 7 yidanin (tempos – 4:16, 23, 25, 32) como um animal.

No final do capítulo yidan é substituído por yom, comumente traduzido como dia como em Gênesis 1. Mas yom possui uma abrangência semântica maior que um ciclo diário. Por exemplo, Deus é descrito no capítulo 7 como o Ancião de DIAS (yomim – v.9, 13, 22). Assim, o contexto deve determinar qual a melhor descrição de tempo expressada por yidan e yom. Que elas no capítulo 4 devem ser entendidas por anos literais os judeus que traduziram a Septuaginta (LXX-AT em grego) atestam ao usarem etwn ho chronos (4:34). Eles usam duas palavras que enfatizam o ciclo anual cronológico.

Essa permutação de um dia para ano onde yom é usado para os dois não é novidade de literatura apocalíptica. Note esse texto de I Sam 27:7: “E o número dos dias (plural–yamim) que Davi habitou na terra dos filisteus foi de um ano (yamim) e quatro meses.” Em Levíticos 25:29 yom é paralelo a shana. Portanto não é estranho o termo comum para dia também expressar um tempo maior como ano.

O segundo argumento ainda mais relevante é o recurso da miniaturalização profética. (ver Alberto R. Timm. Miniature symbolization and the year-day principle of prophetic interpretation. Andrews University Seminary Studies vol.42, n.1, p.149-167.- http://www.auss.info/auss_publication_file.php?pub_id=1072&journal=1&type=pdf,  esse princípio é demonstrado primeiramente em Números 14 e secundariamente em Ezequiel 4. Em ambos os capítulos indivíduos REPRESENTAM um grupo maior de pessoas e consequentemente um tempo menor SIMBOLIZA uma realidade maior. Em Números, doze espias representam as 12 tribos de Israel. Em Ezequiel o profeta representa toda a nação dos judeus. O tempo vivenciados pela ser menor (12 espias e profeta Ezequiel) é trasposto à entidade maior (12 tribos ou Israel).

Essa dinâmica é característica de profecia apocalíptica. Visto que Deus descreve ao profeta uma realidade além da do profeta Ele usa símbolos que miniaturalizam realidades maiores. Assim como uma bandeira representa um país inteiro. Em Daniel animais ou metais representam nações/poderes. Um leão alado ou uma cabeça de ouro, por exemplo, representam Babilônia.

Dessa maneira a profecia conta uma grande história de uma maneira abreviada. Logicamente a miniaturalização se aplica ao tempo profético. Em Daniel 7 e 8 não só os animais são “estranhos” mas a descrição de tempo também. Não se usa corriqueiramente “2300 tardes-manhãs” como em Dan 8:14 para descrever um período de um pouco mais que 6 anos. Nem “tempo, tempos e metade de um tempo” (7:25). Essas são algumas evidências textuais que clamam para uma interpretação simbólica do elemento de tempo na profecia apocalíptica.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Como interpretar tempos em profecias apocalípticas - parte 1

     4)     Como interpreter tempo em profecia e por que aplicar o princípio dia-ano em profecias apocalípticas como Daniel e Apocalipse?

Primeiramente deve-se notar que às profecias bíblicas apocalípticas foram escritas num gênero literário distinto e possui suas características peculiares. A literatura apocalíptica em geral é caracterizada por símbolos visto que suas mensagens transcendem a realidade tanto espacial como temporal. [John Joseph Collins, The Apocalyptic Imagination : An Introduction to the Jewish Matrix of Christianity (New York, NY: Crossroad, 1984) p.4; ver mais p.1-19] Tais textos portanto devem ser lidos e interpretados cuidadosamente.

Outra característica do gênero apocalíptico é que suas mensagens focalizam o fim. Se Daniel for considerado como uma profecia legítima, ou seja, inspirada por Deus que revelou o futuro ao profeta, então devemos interpretar esse material de acordo com o que ele afirma ser. Relacionado ao tempo, o foco dessa questão, há pelo menos três sugestões de como os números proféticos em Daniel devem ser entendidos.

 - Idealismo: os números não são literais nem símbolos de tempo, mas representam ou aludem à característica ou de Deus ou de Seu inimigo. No caso de Daniel o período de 3 tempos e meio (1260 no Apocalipse de João) por exemplo é símbolo de perseguição.

- Literalismo (Preterismo/Futurismo): os números são literais mas não precisos mas aproximado visto que o “profeta” tenta descrever o que passou de forma simbólica ou um futuro distante. No caso de Daniel 8 as 2300 tardes-manhãs não foram exatamente 2300 dias.

- Simbolismo (historicismo): os números representam tempos reais, mas dependendo do contexto eles podem representar cumprimentos diferentes de uma leitura literalística. No caso de Daniel 8:14 as 2300 tardes-manhãs são dias (símbolo) representando anos  (cumprimento).

O movimento Adventista do Sétimo Dia faz parte de uma herança profética cristã antiga e interpreta o tempo apocalíptico de maneira simbólica. Não é meu intuito aqui criticar e descrever as outras maneiras de interpretação profética mas de brevemente descrever o que em minha opinião sejam os principais argumentos do princípio dia-ano (próximo post). Esse princípio interpretativo historicista propõe que em profecias apocalípticas como Daniel 7-9, o tempo descrito pelo profeta deve ser interpretato como anos literais. (continua quinta...)

domingo, 26 de agosto de 2012

Ligando os pontos...

3)      Qual a relação entre Dan 8 e 9?

Além de obviamente o capítulo 9 seguir o 8 eles se seguem cronologicamente e literariamente. Enquanto Dan 8 ocorre no 3º ano de Belsazar, Dan 9 acontece no 1º ano de Dario, o Medo. Há também uma correlação temática muito próxima. Daniel 8 termina com o profeta não entendendo a visão relacionada ao tempo da desolação do templo. Daniel 9 começa com o profeta orando pela restauração do templo tendo uma profecia de tempo em mente (Jer 29:10-...).

A relação continua. Um anjo aparece para explicar Daniel no capítulo 8 os símbolos dos animais, mas não sobre o tempo. Já no capítulo 9, onde não há nenhuma visão ou símbolos, o anjo aparece para explicar um tempo ao profeta em resposta à oração de Daniel sobre o tempo da desolação do templo. A parte da visão em Dan 8 que o profeta não entende é o tempo.

A visão não entendida por Daniel é descrita como aparição (Heb.Mareh), pois é o aparecimento de dois seres conversando sobre o tempo da desolação do templo. Essa aparição (mareh) não é explicada e assim a visão (hazon) é encerrada até o tempo do fim (8:26). Esse particular é importante pois a visão geral dos animais e do chifre desolador é referida como hazon (8:1, 15, 26) e não mareh (8:15, 26). A aparição (mareh) está relacionada a aparições de seres que falam, e não aos símbolos apocalípticos de animais e chifres. No caso de Dan 8 ela se refere às 2300 tardes-manhãs (8:14). E quando o anjo aparece para Daniel no capítulo 9 ele diz: “considera pois a palavra (Heb.dabar) e entende a visão/aparição (mareh)” (v.23). Daniel deve entender agora a mareh e não a hazon que já fora parcialmente explicada.

Assim, claramente os dois capítulos estão fortemente relacionados visto que Dan 9 é a resposta da segunda parte da visão (hazon) outrora não explicada, a mareh do tempo. Enquanto em Dan 8 não há nenhuma referência para iniciar ou terminar a contagem das 2300 tardes-manhãs, em Dan 9 o anjo inicia um tempo que é cortado (Heb.hatak – 9:24) do tempo maior anterior. Logicamente um período menor de tempo é “cortado” de um maior. Como Dan 9 são 70 semanas de anos (ciclo de 7 anos), ou 490 anos, obviamente as 2300 tardes-manhãs precisam ser maiores. Aplicando o princípio de dia-ano profético (nosso próximo post) temos então 490 anos como parte de 2300 anos, o que confirma o que o anjo veio expllicar, o tempo da visão anterior.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Antíoco ou Roma - chifre pequeno


2)     Será que Antioco IV Epifânio cumpre os requerimentos textuais e históricos cumprindo o simbolo profetico do chifre “pequeno” em Daniel 8?

Primeiramente para verificar a confirmação de um evento profético é necessário considerar como interpretar às profecias de Daniel. Como visto na questão anterior os capítulos 2, 7 e 8 de Daniel sugerem uma interpretação historicista. Isso quer dizer que os seus símbolos descrevem eventos do tempo do profeta até o tempo do fim em sequencia. É importante notar que esses capitulos estão em paralelismo e de maneira a recapitular e avançar a profecia anterior (proximo post – mais informação sobre metodologia profetica escatologica).

Vimos que Daniel 2 claramente identifica os metais como reinos em sucessão a partir de Babilônia (v.38,39). Semelhantemente o capítulo 7 possui a mesma sequência de 4 reinos sucessivos + 1 reino distinto + Reino de Deus no fim. Em Dan 8 há uma mesma sequência de reinos até o fim (v.17,19). Um deles é interpretado no próprio livro como Media e Persia (v.20), e o poder que o segue como Grécia (v.21). Esses são marcadores textuais que sugerem fortemente que todas essas profecias representam/simbolizam poderem hist[oricos desde o tempo do profeta até o tempo do fim.

Esse paralelismo temático finalizando com um juízo divino aos reinos nos são de grande valia para determinar qual poder representa o chifre “pequeno” em Daniel 8. Note que há um chifre pequeno em Daniel 7 que termina com um julgamento divino. Paralelamente no capítulo 8 o anjo afirma que a visão vai até o fim (v.17,19) com a purificação do santuário, o que é o juízo no capítulo anterior. Considerando esses dados, como pode o “fim” e “juízo” terem ocorrido no tempo de Antíoco IV Epifânio no II século A.C.?

A probabilidade é mínima. Os profetas do Antigo Testamento prefiguravam uma escatologia (últimos dias) onde Deus estabeleceria o Seu reino em Israel para sempre. Isso definitavamente não ocorreu no tempo de Antioco IV. Apesar de o livro de Macabeus tentar interpretar Daniel como cumprindo nesse período, Antioco não chegou ao “fim” nem o reino de Deus foi estabelecido com a purificação do santuário e a expulsão desse rei.

Jesus também nega essa interpretação pois Ele prometeu estabelecer o eterno reino de Deus prefigurado no Antigo Testamento ainda no futuro, séculos depois de Antíoco. Ainda mais, Cristo em Seu sermão escatológico afirma que a abominação desoladora de Daniel 9 aconteceria ainda no futuro de seus dias na terra com os discípulos. Visto que a abominação desoladora é causada pelo chifre pequeno, o que todas as escolas (preteristas, futuristas e historicistas) reconhecem, isso nega a interpretação de Antíoco como sendo tal poder.

Outra forte evidência é relacionada ao tempo em Daniel. Em 8:14 o anjo afirma que a purificação do santuário aconteceria após 2300 tardes-manhãs. Mesmo se interpretado como tempo literal referentes a dias completos (tarde-manhã) esse período não coaduna com a única descrição histórica sobre Antíoco e a purificação do santuário encontrada nos livros de Macabeus, que totalizam apenas 1100 dias. Tal período não bate com nenhum tempo encontrado no livro de Daniel: 2300 (Dan 8:14), 3 ½ tempos (1260 – em Dan 7:25), 1290 (12:11) ou 1335 (12:12).

Analisando o texto de Dan 8:8-12 ainda mais, há mais evidências contra a interpretação de Antíocos. É inegável que o poder descrito no v.8 é referente a Grécia visto que o anjo assim o interpreta (v.21). A questão interpretativa está relacionada ao v.9: “de um deles” vem o chifre pequeno. O pronome “deles” se refe a qual objeto antecedente? O mais óbvio e imediato são os quatro ventos dos céus (v.8). Embora esteja implícito devemos notar que não há menção explícita de 4 chifres no verso 8 (note que na tradução em Português ARA os tradutores colocaram “chifres notáveis” onde no hebraico apenas há “quatro notáveis”).

Essa ausência pode sugerir uma mudança de assunto e que o pronome “deles” no v.9 não se refira às divisões do império Greco, mas aos quatro ventos da terra (compasso geográfico). Assim o esquema profético em Dan 8 estaria em paralelo com os capítulos 2 e 7 que possuem Roma como o poder após a Grécia e próxima ao tempo do fim. Visto que Dan 7 e 8 são bem semelhantes, pois ambos referem-se a um chifre pequeno antes do tempo do fim, a interpretação de Antioco deve ser questionada.

Questionada pois ela basea-se fortemente em palavras supridas por traduções, como “sacrifício” no v.11,12,13 referente ao diário (hb. Tamid). Apesar do termo possuir fortes ligações como atividades cúlticas do antigo Israel (santuário), o termo sacrifício não aparece em Daniel 8 e não se limita apenas aos sacrifícios oferecidos no culto do templo. Também pode ser argumentado que Antíoco IV Epifânio não foi tão bem sucedido e poderoso como a profecia transcreve esse poder representado pelo chifre pequeno. Esse chifre “tornou-se muito forte” (“engradecia muito”), mais que o poder anterior que apena “engrandecia” (v.4). Há também um crescendo na descrição dos poderes na visão. Historicamente no entanto não chegou nem perto de Alexandre o Grande que o antecedeu e representa o chifre notável do carneiro.

Mais duas evidências devem ser levadas em conta relacionadas a  reação de Daniel ao final da visão e interpretação. No final do capítulo 8 e início do 9 Daniel é descrito como estando mui triste e extremamente  preocupado. Se a profecia fora escrita após o evento ocorrer, como advogam os preteristas que interpretam o chifre pequeno como sendo Antíoco, não faz sentido porque o autor (Daniel) estava triste em saber que seu povo e templo seria “em breve” restaurado. Ele jejua e ora, ora até ficar exausto pois parece que levaria um longo tempo para que seu povo Israel fosse restaurado e o templo reconstruído. Daniel 9 conecta o capítulo anterior há luz do cativeiro Babilônico e a profecia de Jeremias sobre os 70 de cativeiro (cap.19 e 25).

Todos esses dados fortalecem a interpretação historicista e não a preterista/futurista que veementemente afirma ser Antíoco o chifre pequeno. Há ainda mais evidências no próprio livro de Daniel que não aprovam tal interpretação antes de Cristo. A interpretação historicista conecta perfeitamente em detalhes na história os eventos do texto de Daniel 8 ao contrário do malabarismo preterista em relação ao tempo principalmente. Roma veio após a Grécia e com mais força. Tanto sua fase pagã como papal atacou o santuário de Deus e contaminou o ministério de Cristo (Messias). Assim não fora com Antíoco. Essas característas encaixam quando a visão cronológica historicista do dia-ano interpreta tais eventos descritos por Daniel do seu tempo ao tempo do fim.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Questões em Daniel e Apocalipse - introdução

Estou de volta ao blog. Formatura pra trás e com ela muitos materiais interessantes (pelo menos pra mim - espero também pra o leitor) que pretendo traduzir do inglês e colocar a disposição aqui no blog. Começo com a última aula que tive no Seminário Adventista na Andrews University - Issues in Daniel and Revelation (questões em Daniel e Apocalipse).

As postagens serão perguntas e respostas feitas pelos professores Roy Gane (Daniel) e Tom Shepherd (Apocalipse). Devo esclarecer no entanto que emboras as perguntas tenham sido elaboradas por eles as respostas foram minhas, mesmo que baseadas nas leituras sugeridas pelos professores e em suas aulas. O que quero dizer com isso é que se há algo de errado nas respostas tomo toda a responsabilidade. E se elas estão corretas foram graças ao ensino apropriado de tais mestres e servos de Deus. 

Começando hoje por Daniel, tentarei postar a cada 2 dias uma questão com resposta. Espere que o material seja tão empolgante para você como foi para mim...

Antes de sair, sugiro alguns materiais que forma de grande valor relacionado às profecias de Daniel e Apocalipse:

FROOM, LeRoy. Prophetic Faith of our Fathers. 4 volumes. Washington D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1946-58. (história da interpretação profética)
HOLBROOK, Frank. DARCOM - Daniel and Revelation Committee Series. 6 volumesWashington, D.C.: Biblical Research Institute General Conference of Seventh-day Adventists, 1986-1992. (série de artigos em resposta a Desmond Ford sobre o santuário e interpretação profética - alguns volumes agora em português publicados pela Unaspress http://unasp-ec.edu.br/unaspress/loja/ )
MOORE, Marvin. The case for the investigative judgment - its biblical foundation. Nampa, Idaho: Pacific Press, 2010. (questões proféticas em Daniel e Hebreus- especialmente Dan.7,8 e 9)
LARONDELLE, Hans K. Las profecías del fin. Buenos Aires: Asociación casa Editora Sudamericana, 1999
PAULIEN, Jon. The Deep Things of God. Hagerstown, MD: Review and Herald, 2004. (historicista - ferramentas hermenêuticas)
MOUNCE, Robert. The Book of Revelation, NICNT series, revised ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. (futurista)
GANE, Roy. Who’s Afraid of the Judgment? The Good News About Christ’s Work in the Heavenly Sanctuary. Nampa, ID: Pacific Press, 2006.
SHEA, William H. Daniel: A Reader's Guide. Nampa, Idaho: Pacific Press, 2005.

Desses postarei futuramente uma breve análise dos últimos 4. Até mais

Questões proféticas no livro de Daniel

      1)     Qual sistema hermenêutico o livro bíblico de Daniel favorece para sua interpretação, tendo em vista uma leitura natural e considerando sua estrutura literária e conteúdo?

É reconhecido por estudiosos da Bíblia, mesmo os adeptos do sistema hermenêutico preterista (os que interpretam o livro de Daniel como descrevendo eventos após sua ocorrência), que o livro de Daniel e seu autor afirmam está predizendo o futuro. Por exemplo, em Dan 2:7-12 e Dan 4, o autor claramente diz que sua mensagem é sobre o futuro. Daniel repetidamente demonstra que sua mensagem é de procedência divina (Revelação) e por isso deve ser considerada verdadeira e confiável. Isso quer dizer que Deus é Aquele que revela os eventos que ainda não ocorreram por ocassião do tempo do profeta Daniel.

Uma leitura, mesmo que superficial, de Daniel indica que seu conteúdo clama por uma interpretação profética do livro. Por profética eu quero dizer descritiva do “futuro” do autor. Assim, levando em conta o próprio conteúdo de Daniel apenas duas escolas de interpretação são válidas e coerentes, o futurismo e o historicismo. Ambos futurismo e historicismo lêem o livro de Daniel descrevendo em símbolos a história das ações divinas. Essas ações vão desde o tempo do autor até o tempo do fim. A maior differença entre esses sistemas interpretativos é o hiato/lacuna histórica entre o “presente” (do tempo do profeta/autor) e do “futuro” (eschaton-Reino de Deus).

Para os futuristas há um grande hiato nas profecias de Daniel. Por exemplo, para os futuristas, 69 das 70 semanas de Dan 9 se referem primariamente ao tempo de Jesus no séc I (AD). Mas a última semana (70ª) é referente ao fim dos tempos quando o anticristo virá. Eles também interpretam o chifre que começa pequeno em Dan 7 e 8, assim como alusões desse poder em Dan 11, de uma maneira dupla. Primariamente esse poder (simbolizado pelo chifre) é historicamente Antíoco Epifânio, pois é o desafiador do povo de Deus no tempo do autor de Daniel. Mas tipologicamente é o anticristo futuro.

Contráriando essa interpretação o historicismo interpreta esse chifre que começa pequeno identificando apenas uma entidade histórica. Isso também se aplica aos tempos proféticos como símbolos do futuro (do profeta). Tanto o tempo como a entidade histórica prefigurada identificam apenas um evento numa contínua linha do tempo desde o tempo do profeta/autor até o tempo do fim (eschaton-Reino de Deus).

Qual sistema hermenêutico o livro de Daniel favorece? Em Dan 2:38,39 a interpretação da estátua refere-se a reinos em sucessão histórica. Començando de Babilônia (“tu és a cabeça de ouro”) até o estabelecimento do reino de Deus sem interrupção. Semelhante a Dan 2, o capítulo 7 possui a mesma sequência de 4 reinos sucessivos + 1 reino distinto + Reino de Deus no fim. Em Dan 8 há uma mesma sequência de reinos até o fim (v.17,19). Um deles é interpretado no próprio livro como Media e Persia (v.20), e o poder que o segue como Grécia (v.21). Em Dan 11 os reis também são descritos em sucessão temporal, um seque o outro.

Assim, levando em conta o próprio conteúdo do livro de Daniel, a impressão é que todas as visões possuem o mesmo conceito de descrever a história do tempo do profeta até o tempo do fim sem hiatos significativos. A estrutúria literária em paralelismo temático fortalece essa ideia que parelha todas as visões proféticas de Daniel (2,7,8-9,10-12). Vejamos apenas algumas semelhanças: Dan 7 e 8 finalizam com um juízo celeste; Dan 8 e 11 descrevem um poder inimigo atacando o santuário de Deus e Seu culto bem antes do fim; Dan 2 e 7 começam com 4 reinos.

Outra evidência significativa apoiando essa interpretação historicista sem maiores hiatos temporais se encontra na interpretação de Jesus (Mat 24:15; Mar 13:14). Para Cristo à abominação desoladora do chifre blasfêmio contra o santuário ainda estava para acontecer (futuro imediato de Jesus). João no Apocalipse também refere-se as profecias de Daniel acontecendo no futuro, mas isso requer uma visão historicista para interpretar o livro de Apocalipse.

O que concluímos aqui é que a leitura mais coerente do livro de Daniel é historicista. Sua estrutura literária e conteúdo sugerem fortemente que seus símbolos proféticos predizem eventos e poderes em sucessão histórica desde o tempo do profeta até o tempo do fim sem hiatos significativos. Talvez seja por isso que o autor seja elevado geograficamente em visão ou sonho, pois os eventos transcritos ocorrem além de sua habilidade.