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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Como interpretar tempos em profecias apocalípticas - parte 1

     4)     Como interpreter tempo em profecia e por que aplicar o princípio dia-ano em profecias apocalípticas como Daniel e Apocalipse?

Primeiramente deve-se notar que às profecias bíblicas apocalípticas foram escritas num gênero literário distinto e possui suas características peculiares. A literatura apocalíptica em geral é caracterizada por símbolos visto que suas mensagens transcendem a realidade tanto espacial como temporal. [John Joseph Collins, The Apocalyptic Imagination : An Introduction to the Jewish Matrix of Christianity (New York, NY: Crossroad, 1984) p.4; ver mais p.1-19] Tais textos portanto devem ser lidos e interpretados cuidadosamente.

Outra característica do gênero apocalíptico é que suas mensagens focalizam o fim. Se Daniel for considerado como uma profecia legítima, ou seja, inspirada por Deus que revelou o futuro ao profeta, então devemos interpretar esse material de acordo com o que ele afirma ser. Relacionado ao tempo, o foco dessa questão, há pelo menos três sugestões de como os números proféticos em Daniel devem ser entendidos.

 - Idealismo: os números não são literais nem símbolos de tempo, mas representam ou aludem à característica ou de Deus ou de Seu inimigo. No caso de Daniel o período de 3 tempos e meio (1260 no Apocalipse de João) por exemplo é símbolo de perseguição.

- Literalismo (Preterismo/Futurismo): os números são literais mas não precisos mas aproximado visto que o “profeta” tenta descrever o que passou de forma simbólica ou um futuro distante. No caso de Daniel 8 as 2300 tardes-manhãs não foram exatamente 2300 dias.

- Simbolismo (historicismo): os números representam tempos reais, mas dependendo do contexto eles podem representar cumprimentos diferentes de uma leitura literalística. No caso de Daniel 8:14 as 2300 tardes-manhãs são dias (símbolo) representando anos  (cumprimento).

O movimento Adventista do Sétimo Dia faz parte de uma herança profética cristã antiga e interpreta o tempo apocalíptico de maneira simbólica. Não é meu intuito aqui criticar e descrever as outras maneiras de interpretação profética mas de brevemente descrever o que em minha opinião sejam os principais argumentos do princípio dia-ano (próximo post). Esse princípio interpretativo historicista propõe que em profecias apocalípticas como Daniel 7-9, o tempo descrito pelo profeta deve ser interpretato como anos literais. (continua quinta...)

domingo, 26 de agosto de 2012

Ligando os pontos...

3)      Qual a relação entre Dan 8 e 9?

Além de obviamente o capítulo 9 seguir o 8 eles se seguem cronologicamente e literariamente. Enquanto Dan 8 ocorre no 3º ano de Belsazar, Dan 9 acontece no 1º ano de Dario, o Medo. Há também uma correlação temática muito próxima. Daniel 8 termina com o profeta não entendendo a visão relacionada ao tempo da desolação do templo. Daniel 9 começa com o profeta orando pela restauração do templo tendo uma profecia de tempo em mente (Jer 29:10-...).

A relação continua. Um anjo aparece para explicar Daniel no capítulo 8 os símbolos dos animais, mas não sobre o tempo. Já no capítulo 9, onde não há nenhuma visão ou símbolos, o anjo aparece para explicar um tempo ao profeta em resposta à oração de Daniel sobre o tempo da desolação do templo. A parte da visão em Dan 8 que o profeta não entende é o tempo.

A visão não entendida por Daniel é descrita como aparição (Heb.Mareh), pois é o aparecimento de dois seres conversando sobre o tempo da desolação do templo. Essa aparição (mareh) não é explicada e assim a visão (hazon) é encerrada até o tempo do fim (8:26). Esse particular é importante pois a visão geral dos animais e do chifre desolador é referida como hazon (8:1, 15, 26) e não mareh (8:15, 26). A aparição (mareh) está relacionada a aparições de seres que falam, e não aos símbolos apocalípticos de animais e chifres. No caso de Dan 8 ela se refere às 2300 tardes-manhãs (8:14). E quando o anjo aparece para Daniel no capítulo 9 ele diz: “considera pois a palavra (Heb.dabar) e entende a visão/aparição (mareh)” (v.23). Daniel deve entender agora a mareh e não a hazon que já fora parcialmente explicada.

Assim, claramente os dois capítulos estão fortemente relacionados visto que Dan 9 é a resposta da segunda parte da visão (hazon) outrora não explicada, a mareh do tempo. Enquanto em Dan 8 não há nenhuma referência para iniciar ou terminar a contagem das 2300 tardes-manhãs, em Dan 9 o anjo inicia um tempo que é cortado (Heb.hatak – 9:24) do tempo maior anterior. Logicamente um período menor de tempo é “cortado” de um maior. Como Dan 9 são 70 semanas de anos (ciclo de 7 anos), ou 490 anos, obviamente as 2300 tardes-manhãs precisam ser maiores. Aplicando o princípio de dia-ano profético (nosso próximo post) temos então 490 anos como parte de 2300 anos, o que confirma o que o anjo veio expllicar, o tempo da visão anterior.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Antíoco ou Roma - chifre pequeno


2)     Será que Antioco IV Epifânio cumpre os requerimentos textuais e históricos cumprindo o simbolo profetico do chifre “pequeno” em Daniel 8?

Primeiramente para verificar a confirmação de um evento profético é necessário considerar como interpretar às profecias de Daniel. Como visto na questão anterior os capítulos 2, 7 e 8 de Daniel sugerem uma interpretação historicista. Isso quer dizer que os seus símbolos descrevem eventos do tempo do profeta até o tempo do fim em sequencia. É importante notar que esses capitulos estão em paralelismo e de maneira a recapitular e avançar a profecia anterior (proximo post – mais informação sobre metodologia profetica escatologica).

Vimos que Daniel 2 claramente identifica os metais como reinos em sucessão a partir de Babilônia (v.38,39). Semelhantemente o capítulo 7 possui a mesma sequência de 4 reinos sucessivos + 1 reino distinto + Reino de Deus no fim. Em Dan 8 há uma mesma sequência de reinos até o fim (v.17,19). Um deles é interpretado no próprio livro como Media e Persia (v.20), e o poder que o segue como Grécia (v.21). Esses são marcadores textuais que sugerem fortemente que todas essas profecias representam/simbolizam poderem hist[oricos desde o tempo do profeta até o tempo do fim.

Esse paralelismo temático finalizando com um juízo divino aos reinos nos são de grande valia para determinar qual poder representa o chifre “pequeno” em Daniel 8. Note que há um chifre pequeno em Daniel 7 que termina com um julgamento divino. Paralelamente no capítulo 8 o anjo afirma que a visão vai até o fim (v.17,19) com a purificação do santuário, o que é o juízo no capítulo anterior. Considerando esses dados, como pode o “fim” e “juízo” terem ocorrido no tempo de Antíoco IV Epifânio no II século A.C.?

A probabilidade é mínima. Os profetas do Antigo Testamento prefiguravam uma escatologia (últimos dias) onde Deus estabeleceria o Seu reino em Israel para sempre. Isso definitavamente não ocorreu no tempo de Antioco IV. Apesar de o livro de Macabeus tentar interpretar Daniel como cumprindo nesse período, Antioco não chegou ao “fim” nem o reino de Deus foi estabelecido com a purificação do santuário e a expulsão desse rei.

Jesus também nega essa interpretação pois Ele prometeu estabelecer o eterno reino de Deus prefigurado no Antigo Testamento ainda no futuro, séculos depois de Antíoco. Ainda mais, Cristo em Seu sermão escatológico afirma que a abominação desoladora de Daniel 9 aconteceria ainda no futuro de seus dias na terra com os discípulos. Visto que a abominação desoladora é causada pelo chifre pequeno, o que todas as escolas (preteristas, futuristas e historicistas) reconhecem, isso nega a interpretação de Antíoco como sendo tal poder.

Outra forte evidência é relacionada ao tempo em Daniel. Em 8:14 o anjo afirma que a purificação do santuário aconteceria após 2300 tardes-manhãs. Mesmo se interpretado como tempo literal referentes a dias completos (tarde-manhã) esse período não coaduna com a única descrição histórica sobre Antíoco e a purificação do santuário encontrada nos livros de Macabeus, que totalizam apenas 1100 dias. Tal período não bate com nenhum tempo encontrado no livro de Daniel: 2300 (Dan 8:14), 3 ½ tempos (1260 – em Dan 7:25), 1290 (12:11) ou 1335 (12:12).

Analisando o texto de Dan 8:8-12 ainda mais, há mais evidências contra a interpretação de Antíocos. É inegável que o poder descrito no v.8 é referente a Grécia visto que o anjo assim o interpreta (v.21). A questão interpretativa está relacionada ao v.9: “de um deles” vem o chifre pequeno. O pronome “deles” se refe a qual objeto antecedente? O mais óbvio e imediato são os quatro ventos dos céus (v.8). Embora esteja implícito devemos notar que não há menção explícita de 4 chifres no verso 8 (note que na tradução em Português ARA os tradutores colocaram “chifres notáveis” onde no hebraico apenas há “quatro notáveis”).

Essa ausência pode sugerir uma mudança de assunto e que o pronome “deles” no v.9 não se refira às divisões do império Greco, mas aos quatro ventos da terra (compasso geográfico). Assim o esquema profético em Dan 8 estaria em paralelo com os capítulos 2 e 7 que possuem Roma como o poder após a Grécia e próxima ao tempo do fim. Visto que Dan 7 e 8 são bem semelhantes, pois ambos referem-se a um chifre pequeno antes do tempo do fim, a interpretação de Antioco deve ser questionada.

Questionada pois ela basea-se fortemente em palavras supridas por traduções, como “sacrifício” no v.11,12,13 referente ao diário (hb. Tamid). Apesar do termo possuir fortes ligações como atividades cúlticas do antigo Israel (santuário), o termo sacrifício não aparece em Daniel 8 e não se limita apenas aos sacrifícios oferecidos no culto do templo. Também pode ser argumentado que Antíoco IV Epifânio não foi tão bem sucedido e poderoso como a profecia transcreve esse poder representado pelo chifre pequeno. Esse chifre “tornou-se muito forte” (“engradecia muito”), mais que o poder anterior que apena “engrandecia” (v.4). Há também um crescendo na descrição dos poderes na visão. Historicamente no entanto não chegou nem perto de Alexandre o Grande que o antecedeu e representa o chifre notável do carneiro.

Mais duas evidências devem ser levadas em conta relacionadas a  reação de Daniel ao final da visão e interpretação. No final do capítulo 8 e início do 9 Daniel é descrito como estando mui triste e extremamente  preocupado. Se a profecia fora escrita após o evento ocorrer, como advogam os preteristas que interpretam o chifre pequeno como sendo Antíoco, não faz sentido porque o autor (Daniel) estava triste em saber que seu povo e templo seria “em breve” restaurado. Ele jejua e ora, ora até ficar exausto pois parece que levaria um longo tempo para que seu povo Israel fosse restaurado e o templo reconstruído. Daniel 9 conecta o capítulo anterior há luz do cativeiro Babilônico e a profecia de Jeremias sobre os 70 de cativeiro (cap.19 e 25).

Todos esses dados fortalecem a interpretação historicista e não a preterista/futurista que veementemente afirma ser Antíoco o chifre pequeno. Há ainda mais evidências no próprio livro de Daniel que não aprovam tal interpretação antes de Cristo. A interpretação historicista conecta perfeitamente em detalhes na história os eventos do texto de Daniel 8 ao contrário do malabarismo preterista em relação ao tempo principalmente. Roma veio após a Grécia e com mais força. Tanto sua fase pagã como papal atacou o santuário de Deus e contaminou o ministério de Cristo (Messias). Assim não fora com Antíoco. Essas característas encaixam quando a visão cronológica historicista do dia-ano interpreta tais eventos descritos por Daniel do seu tempo ao tempo do fim.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Questões em Daniel e Apocalipse - introdução

Estou de volta ao blog. Formatura pra trás e com ela muitos materiais interessantes (pelo menos pra mim - espero também pra o leitor) que pretendo traduzir do inglês e colocar a disposição aqui no blog. Começo com a última aula que tive no Seminário Adventista na Andrews University - Issues in Daniel and Revelation (questões em Daniel e Apocalipse).

As postagens serão perguntas e respostas feitas pelos professores Roy Gane (Daniel) e Tom Shepherd (Apocalipse). Devo esclarecer no entanto que emboras as perguntas tenham sido elaboradas por eles as respostas foram minhas, mesmo que baseadas nas leituras sugeridas pelos professores e em suas aulas. O que quero dizer com isso é que se há algo de errado nas respostas tomo toda a responsabilidade. E se elas estão corretas foram graças ao ensino apropriado de tais mestres e servos de Deus. 

Começando hoje por Daniel, tentarei postar a cada 2 dias uma questão com resposta. Espere que o material seja tão empolgante para você como foi para mim...

Antes de sair, sugiro alguns materiais que forma de grande valor relacionado às profecias de Daniel e Apocalipse:

FROOM, LeRoy. Prophetic Faith of our Fathers. 4 volumes. Washington D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1946-58. (história da interpretação profética)
HOLBROOK, Frank. DARCOM - Daniel and Revelation Committee Series. 6 volumesWashington, D.C.: Biblical Research Institute General Conference of Seventh-day Adventists, 1986-1992. (série de artigos em resposta a Desmond Ford sobre o santuário e interpretação profética - alguns volumes agora em português publicados pela Unaspress http://unasp-ec.edu.br/unaspress/loja/ )
MOORE, Marvin. The case for the investigative judgment - its biblical foundation. Nampa, Idaho: Pacific Press, 2010. (questões proféticas em Daniel e Hebreus- especialmente Dan.7,8 e 9)
LARONDELLE, Hans K. Las profecías del fin. Buenos Aires: Asociación casa Editora Sudamericana, 1999
PAULIEN, Jon. The Deep Things of God. Hagerstown, MD: Review and Herald, 2004. (historicista - ferramentas hermenêuticas)
MOUNCE, Robert. The Book of Revelation, NICNT series, revised ed. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. (futurista)
GANE, Roy. Who’s Afraid of the Judgment? The Good News About Christ’s Work in the Heavenly Sanctuary. Nampa, ID: Pacific Press, 2006.
SHEA, William H. Daniel: A Reader's Guide. Nampa, Idaho: Pacific Press, 2005.

Desses postarei futuramente uma breve análise dos últimos 4. Até mais

Questões proféticas no livro de Daniel

      1)     Qual sistema hermenêutico o livro bíblico de Daniel favorece para sua interpretação, tendo em vista uma leitura natural e considerando sua estrutura literária e conteúdo?

É reconhecido por estudiosos da Bíblia, mesmo os adeptos do sistema hermenêutico preterista (os que interpretam o livro de Daniel como descrevendo eventos após sua ocorrência), que o livro de Daniel e seu autor afirmam está predizendo o futuro. Por exemplo, em Dan 2:7-12 e Dan 4, o autor claramente diz que sua mensagem é sobre o futuro. Daniel repetidamente demonstra que sua mensagem é de procedência divina (Revelação) e por isso deve ser considerada verdadeira e confiável. Isso quer dizer que Deus é Aquele que revela os eventos que ainda não ocorreram por ocassião do tempo do profeta Daniel.

Uma leitura, mesmo que superficial, de Daniel indica que seu conteúdo clama por uma interpretação profética do livro. Por profética eu quero dizer descritiva do “futuro” do autor. Assim, levando em conta o próprio conteúdo de Daniel apenas duas escolas de interpretação são válidas e coerentes, o futurismo e o historicismo. Ambos futurismo e historicismo lêem o livro de Daniel descrevendo em símbolos a história das ações divinas. Essas ações vão desde o tempo do autor até o tempo do fim. A maior differença entre esses sistemas interpretativos é o hiato/lacuna histórica entre o “presente” (do tempo do profeta/autor) e do “futuro” (eschaton-Reino de Deus).

Para os futuristas há um grande hiato nas profecias de Daniel. Por exemplo, para os futuristas, 69 das 70 semanas de Dan 9 se referem primariamente ao tempo de Jesus no séc I (AD). Mas a última semana (70ª) é referente ao fim dos tempos quando o anticristo virá. Eles também interpretam o chifre que começa pequeno em Dan 7 e 8, assim como alusões desse poder em Dan 11, de uma maneira dupla. Primariamente esse poder (simbolizado pelo chifre) é historicamente Antíoco Epifânio, pois é o desafiador do povo de Deus no tempo do autor de Daniel. Mas tipologicamente é o anticristo futuro.

Contráriando essa interpretação o historicismo interpreta esse chifre que começa pequeno identificando apenas uma entidade histórica. Isso também se aplica aos tempos proféticos como símbolos do futuro (do profeta). Tanto o tempo como a entidade histórica prefigurada identificam apenas um evento numa contínua linha do tempo desde o tempo do profeta/autor até o tempo do fim (eschaton-Reino de Deus).

Qual sistema hermenêutico o livro de Daniel favorece? Em Dan 2:38,39 a interpretação da estátua refere-se a reinos em sucessão histórica. Començando de Babilônia (“tu és a cabeça de ouro”) até o estabelecimento do reino de Deus sem interrupção. Semelhante a Dan 2, o capítulo 7 possui a mesma sequência de 4 reinos sucessivos + 1 reino distinto + Reino de Deus no fim. Em Dan 8 há uma mesma sequência de reinos até o fim (v.17,19). Um deles é interpretado no próprio livro como Media e Persia (v.20), e o poder que o segue como Grécia (v.21). Em Dan 11 os reis também são descritos em sucessão temporal, um seque o outro.

Assim, levando em conta o próprio conteúdo do livro de Daniel, a impressão é que todas as visões possuem o mesmo conceito de descrever a história do tempo do profeta até o tempo do fim sem hiatos significativos. A estrutúria literária em paralelismo temático fortalece essa ideia que parelha todas as visões proféticas de Daniel (2,7,8-9,10-12). Vejamos apenas algumas semelhanças: Dan 7 e 8 finalizam com um juízo celeste; Dan 8 e 11 descrevem um poder inimigo atacando o santuário de Deus e Seu culto bem antes do fim; Dan 2 e 7 começam com 4 reinos.

Outra evidência significativa apoiando essa interpretação historicista sem maiores hiatos temporais se encontra na interpretação de Jesus (Mat 24:15; Mar 13:14). Para Cristo à abominação desoladora do chifre blasfêmio contra o santuário ainda estava para acontecer (futuro imediato de Jesus). João no Apocalipse também refere-se as profecias de Daniel acontecendo no futuro, mas isso requer uma visão historicista para interpretar o livro de Apocalipse.

O que concluímos aqui é que a leitura mais coerente do livro de Daniel é historicista. Sua estrutura literária e conteúdo sugerem fortemente que seus símbolos proféticos predizem eventos e poderes em sucessão histórica desde o tempo do profeta até o tempo do fim sem hiatos significativos. Talvez seja por isso que o autor seja elevado geograficamente em visão ou sonho, pois os eventos transcritos ocorrem além de sua habilidade. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quem eram os Gálatas?


Continuemos com nossa jornada num dos períodos mais fascinantes da história, o início do cristianismo. As decisões e ações feitas em menos de um século mudaram o mundo. Os ensinos de um rabino da Galileia moldaria a Europa e África, e de lá o planeta por meio de fiéis discípulos. Mas antes de tal sucesso os seguidores do Nazareno enfrentariam perseguições de dentro e de fora. Paulo se envolve em ambas e transforma a cara da nova seita judaica de Jerusalém.



E parte dessa transformação ocorre por cause dos conceitos explicados na carta aos Gálatas. Lembrando que nenhuma carta é escrita num vácuo histórico e existencial. Cartas como a de Gálatas não aparecem do nada. Na Bíblia, ao que lembro, somente a criação em Gn.1 veio do nada e mesmo assim possui um contexto. Entender as razões que criaram esse documento, as intrigas que motivaram Paulo a escrever essa carta são extremamente importantes. Se quisermos entender sua mensagem precisamos primeiro entender quem a escreveu, para quem, quando e por quê.


Quem era Paulo?


O primeiro encontro que temos com Paulo é no martírio de Estévão (At.7:58). Sobre a relação teológica entre Paulo e o mártire já refletimos anteriormente. Lucas ao narrar a história cristã indica que Saulo teve alguma relação com a morte de Estévão, visto que as testemunhas (acusadoras legais) de Estévão pegam as roupas da vítima e entrega ao “jovem chamado Saulo” que “consentia na sua morte” (8:1).


Logo em seguida grande perseguição assola aos seguidores de Jesus o Nazareno e quem é o responsável? “Saulo, porém, assolava a igreja,entrando pelas casas, e arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere.” (v.3). Por causa da perseguição de Saulo a igreja é espalhada na Judéia e Samaria, na ordem que Jesus ordenara que os discípulos pregassam o evangelho (At.1:8).


O que temos em At.8-11 é o primeiro desenvolvimento da pregação aos Gentios e o aparecimento de Paulo. Ao Lucas relacionar Saulo, Estévão, perseguição e pregação aos gentios ele indica na narrativa a importância para o desenrolar da história no restante do livro. Na segunda seção do comentário explico mais essa relação.


O importante aqui é ver essa relação entre Saulo, perseguição e pregação aos Gentios. Quem era Saulo? Seu primeiro (Saul) nome sugere a admiração dos seus pais pelo primeiro rei de Israel da tribo de Benjamim. Ao escrever aos Filipenses Saulo afirma ser dessa tribo, “da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreus dos hebreus”. (3:5 e Rom.11:1)


O que mais sabemos sobre Saulo que nos ajuda a entender a controvérsia em Gálatas e no início da Igreja Cristã? Em Atos 22 temos uma breve autobiografia Paulina.(O contexto desse capítulo será importante para o resto do estudo em Gálatas) Ao ouvir Paulo falando hebraico os soldados romanos se surpreendem por ser Paulo cidadão romano. (At.21:37-40)

“Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia [ver 21:39], mas criei-me nesta cidade [Jerusalém] e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós”. (22:3,4)

Alguns pontos importantíssimos nos é informado pelo próprio Paulo. Ele era judeu de sangue, mas da diáspora, ou seja, judeu que não morava em Jerusalém ou Judéia. Desde o cativeiro Babilônico judeus haviam sido espalhados por “todo o mundo”. Em Atos 2, no Pentecostes, vemos que judeus migraram para as festas em Jerusalém de vários lugares do globo. Paulo veio do norte de Israel, hoje sul da Turquia, de Tarso, na Cilícia (bem perto da Galácia).

A Cilícia era uma rica província Romana. Uma de suas vantagens era a localização entre o Oriente e o Ocidente, onde muitas caravanas comerciais passavam. É possível que a família de Paulo tivesse uma vida financeira confortável. Ainda mais pelo fato deles serem cidadãos romanos (At.22:27-28). Visto que o império romano concedia cidadania a estrangeiros que prestassem serviço ao governo, a probabilidade é que seus familiares receberam esse privilégio. Mas não sabemos os detalhes por falta de informação. O que sabemos é que Paulo era tanto Romano como Hebreu, por nascimento.

Apesar dele nascer em Tarso, ele afirma ter crescido em Jerusalém (22:3). Sua educação provavelmente ocorrera no centro cultural judaico. Uma indicação disso é o termo “hebreus dos hebreus.” Algumas passagens do Novo Testamento, como em IICor.11:22 e At.6:1, sugere que Hebreus são contrastado com judeus Helenistas. Enquanto o primeiro grupo de judeus falavam hebraico e tinham seus rituais litúrgicos mais ligados ao templo, os segundo grupo falava grego e tinha mais relação com estrangeiros (gentios).

O fato de Paulo falar hebraico em At.22, enfatizar sua relação com Jerusalém, está em contraste do Estévão e os Helenistas judeus em At.6-7, deixa claro que Paulo era um “hebreu dos hebreus” de fato. Ainda mais pela sua educação. Ao continuar sua biografia diz, “fui instruído aos pés de Gamalieu, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados , sendo zeloso para com Deus.” (At.22:3)

De acordo com o Talmud (tradição escrita judaica) Gamalieu foi um dos maiores rabinos Judeus. Era neto de Hillel, outro famoso rabino. Os rabinos era a classe de estudiosos da lei, os teólogos do judaísmo pós revolução dos Macabeus.  Desejando a vinda do prometido Messias, e frustados por sua demora, ao lerem as leis de Moises eles aprendem que a causa do cativeiro e da demora do Messias era a quebra da aliança e a falta de obediência a lei do Senhor.

Esse grupo então cria instituições de ensinos e forma rabinos (professores da lei) para mover os judeus a obedecerem a lei, afim de apressar a vinda do Messias (soa familiar com Adventismo?!). Ao que indica, Paulo era um prominente aluno do rabino Gamaliel e provavelmente seria o próximo líder do grupo. A única outra informação que possuímos sobre Gamalieu é que ele tratou com os seguidores de Jesus com grande sabedoria (ver At.5:33-39). A tradição cristã afirma que Gamaliel e Nicodemus, outro rabino, se converteram ao cristianismo posteriormente.

Visto que Paulo estava vivo na época do ministério de Jesus me faz perguntar o que Paulo sabia sobre o Mestre, e se alguma vez ele O havia encontrado. O que sabemos de fato é que Paulo era zeloso conforme aos costumes judaicos da lei. A terminologia “zeloso para com Deus” é repetida por Paulo várias vezes e pode indicar ainda outra parte do seus envolvimento religioso-social no Judaísmo.

Após a revolução dos Macabeus os judeus se dividiram em várias facções para trazer a vinda do Messias. Os fariseus rabinos focavam no estudo da Torah; os Essênios se torna asceticistas para se purificarem no deserto do Mar Morto; os Saduceus eram os sacerdotes que acabam se tornando corruptos com o Império Romano ganhando dinheiro no templo; os Zelotes desatisfeitos com Saduceus e Fariseus resolvem montar coalizão política contra os Romanos e trazer pela força da espada o reino de Deus; os Sicarri eram odiavam os judeus que se envolviam com Romanos e os matavam com facas escondidas em suas vestes.

O interessante é que o grupo dos 12 apóstolos de Cristo possui zelotes e coletores de impostos juntos, o que era um absurdo para a época. A presença de Cristo unifica até os mais ferrenhos inimigos. E era isso que Ele fizera com Saulo na estrada de Damasco. Sendo zeloso e fariseu, isso indicava que Paulo não só desejava trazer o reino de Deus pela obediência estrita a lei, mas pelo envolvimento político contra os dissidentes. Lembre-se desses dados sobre os desejos de trazer o reino de Deus, e o fato de Paulo enfatizar sua ligação com linhas estritas do judaísmo, isso será importante no estudo de Gálatas.

Ao entendermos todo esse contexto socio-político-religioso não é atoa a morte de Estévão e a perseguição aos seguidores desse Jesus o Nazareno.Mas o que Paulo não sabia é que o Reino de Deus já havia iniciado com a vinda daquele que ele tanto odiava. Ao encontrar-se com o Cristo na estrada de Damasco sua vida muda de rumo, e com ela o cristianismo e o mundo.

Seus primeiros anos como seguidor de Jesus e sua influencia sobre o Cristianismo

Entender a cronologia é importante no caso de Gálatas. E por isso tentaremos reconstruir na medida do possível os fatos baseados no livro de Atos. O livro de Gálatas e Atos deixam claro que após o incidente na estrada com Cristo, Paulo vai a Damasco, encontra Ananias e é instruído quanto a ordem do Senhor que ele era instrumento a pregar o evangelho aos gentios (At.9:10-19).

Lucas afirma em seguida que “logo pregava Paulo nas sinagogas”, porém em Gálatas 1:15-17 Paulo informa que esse chamado para pregar aos Gentios ocorreu não por causa de ensino humano, mas ao ele ir para Arábia e depois voltando a Damasco. O tempo não nos é informado.

Após convicção de seu chamado vemos Paulo pregando em Damasco durante 3 anos (Gal.1:18). Durante esses 3 anos Paulo deixa os judeus confusos, pois ele era perseguidor dos seguidores de Cristo e agora afirma ser essa “heresia” verdade. Os judeus tentam matá-lo como ela havia feito (At.8:21-25). Ele então foge para Jerusalém onde conversou com Pedro e Tiago o irmão de Jesus por 15 dias (Gal.1:18,19).

Enquanto isso, Filipe e Pedro estão pregando aos gentios na Palestina (At.8). esses dados são importantes para Paulo porque os seus acusadores afirmavam que a mensagem de Paulo era tradição humana e não em conformidade com os ensinos nem dos judeus nem dos cristãos de Jerusalém (a religião pura). Mas ao falar de sua associação com Gamaliel e Pedro, ao mesmo tempo deixando claro que sua mensagem era divina e não humana, Paulo remove a dualidade do argumento dos seus opositores.

Mas por que eles acusavam Paulo? O que tinha de diferente na pregação de Pedro e Paulo? Note o que acontece em seguida. Após sair de Jerusalém ele vai para Cesaréia (At.9:30; Síria em Gal.1:21) e depois para sua casa em Tarso na Cilícia (mesmos textos). Lá ele ficaria por anos, talvez os 14 que ele menciona em Gal.2:1. E então é “esquecido” pela igreja de Jerusalém (Gal.1:21-24).

Durante essa década “a igreja, na verdade tinha paz por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número.” (At.9:31)

Pedro, Filipe e os cristãos espalhados pela perseguição de Saulo agora pregavam em paz o evangelho de Jesus Cristo. Mas ao que parece essa pregação era apenas aos judeus (At.11:19 -note a relação novamente que Lucas faz entre Estévão, perseguição e pregação do Evangelho), pois Deus tem que trazer outra dificuldade para modificar os pensamentos da igreja. Primeiro Deus usa Saulo para espalhar a igreja centrada em Jerusalém, agora Cornélio e Pedro para quebrar a divisão entre Cristãos-judeus e Gentios.

A história de Cornélio ocorre no período que Paulo está “desconhecido” pela igreja, em Tarso. E não é por causa da pregação de Paulo, mas de Pedro que a igreja perburba-se e discute o tema da missão aos gentios. Em Atos 11 vemos que os cristãos de Jerusalém questionam o trabalho de Pedro e o interroga. Ao ouvirem Pedro “apaziguaram-se e glorificaram a Deus” (v.18). Mas a vinda de Paulo e o concílio em Jerusalém em Atos 15 deixa claro que a implicação do evangelho aos Gentios não estava clara aos líderes da igreja.

Barnabé e o ponto de mudança

Atos 11:19 e 20 é um texto esclarecedor. Enquanto os cristãos hebreus (de Jerusalém) pregavam apenas aos gentios, a passagem informa que os judeus-cristãos da Diáspora anunciam também aos gregos. Mais uma controvérsia se levanta na igreja em Jerusalém que envia Barnabé para averiguar a situação em Antioquia (v.22). Lembre-se que Barnabé é aquele que recebe Paulo em Jerusalém em sua primeira visita, enquanto os judeus-cristãos têm medo de ser ele ainda o perseguidor (At.9:27).

É Barnabé que o introduz aos apóstolos Pedro e Tiago. Ele como Paulo também era um judeu da Diáspora, natural de Chipre e levita, havia se convertido logo no início da pregação antes da morte de Estévão. Barnabé havia vendido tudo e dado o seu dinheiro para causa do Messias Jesus, ao contrário de Ananias e Safira (At.4:36,37). É esse Barnabé, que entende os cristãos gregos, e conhece a Paulo que vai a Antioquia a mando da igreja de Jerusalém.

Ao ver o grande crescimento da igreja e a manifestação do Espírito, Barnabé se alegra. Mas por que então ele vai para Tarso quase 250 km, sem GPS e endereço, para buscar Paulo? Gostei do que sugeriu o professor de Novo Testamento do Seminário da Andrews Ranko Stefanovic. Para Ranko, a igreja de Antioquia, sendo uma cidade grande (cerca de 600 mil habitantes), e rica, possuía muitos judeus.

Pelo contexto mais metropolitano a igreja deveria ser bem diferente da formada em Jerusalém. Sem liturgia em Hebraico, com músicas mais “contemporâneas” e costumes inovadores, os cristãos em Antioquia falavam a língua do povo, e por isso “muita gente se uniu ao Senhor” (11:24). Sem saber como administrar tal igreja, Barnabé lembra de Saulo e do seu trabalho em Damasco anos atrás. Ele tem certeza que Saulo era o homem ideal para dirigir o evangelismo peculiar de Antioquia.

Nesse contexto, da vinda de Paulo e Barnabé para Antioquia que a missão aos gentios toma forma. É nessa cidade que pela primeira vez o nome “cristão” é usado para esse grupo de seguidores de Jesus (v.26). É essa igreja que envia tempo depois a mesma dupla de líderes para evangelizar outros gentios. E quão o primeiro local? A província natal de Barnabé, Chipre, e logo em seguida a Pisídia, ao sul da Turquia, possível Galácia da carta de Paulo.

É nessa viagem que Timóteo é convertido ao cristianismo e que gera as controvérsias do concílio de Jerusalém (ver At.13-14). Pois ao final de sua viagem (que deve ter demorado meses) Lucas descreve que “alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam aos irmãos: se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés não poderei ser salvos. Tendo havido da parte de Paulo e Barnabé contenda e não pequena discussão com eles, resolveram que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros com respeito a questão.” (At.15:1-2)

Se a visita dePaulo em Gal.2:1 é antes da sua viagem missionária essa “não pequena discussão” pode ser o mesmo evento com Pedro descrito por Paulo em Gal.2. Mas creio não ser esse o caso. Primeiro porque Lucas coloca esse grande debate após a viagem missionária e Gal.2:9 deixa indicar que a viagem aos gentios foi depois do ocorrido. Mas os dados não são precisos.

Em minha mente a reconstrução dos fatos é a seguinte: Paulo e Barnabé fazer a 1ª. viagem missionária, voltam para Antioquia, ocorre o debate de At.15:1,2, a dupla vai para Jerusalém onde ocorre o Concílio. Eles voltam para Antioquia ensinando as decisões da reunião e ficam lá por um tempo (At.15:30-35). Nesse tempo Pedro (talvez enviado pela igreja de Jerusalém para certificar-se que está tudo bem), encontra-se com Paulo em Antioquia e a discusão em Gal.2:11-14 ocorre.

Por causa dessa desavença entre Paulo, Barnabé e Pedro, e o fato de Barnabé querer levar Marcos, a dupla missionária aos gentios é desfeita (At.15:36-41). A impaciência de Paulo com Barnabé pode ser lida no contexto da falha (falsidade) de Barnabé em querer agradar o partido de Tiago de Jerusalém. O desejo da dupla era visitar novamente as igreja no sul da Galácia (Pisídia), sendo que com a separação, Barnabé segue o caminho outrora feito, e Paulo vai por terra passando por sua cidade natal, Tarso (At.15:40-41).

Relação com Gálatas

Vamos ver com mais detalhes esses eventos e qual a relação deles com a carta que estamos estudando, a carta aos Gálatas. Provavelmente a carta aos Gálatas foi escrita após o início da terceira viagem missionária de Paulo. Pois após a segunda viagem, Paulo termina visitando Jerusalém e Antioquia. Em seguida inicia outra viagem (3ª) novamente pela Galácia “confirmando todos os discípulos” (At.18:23). O fato de confirmar indica a presença de cristãos já estabelecidos, o que provavelmente era os conversos de sua 1ª. e 2ª. viagem.

Ao permanecer em Éfeso Paulo ouve que a igreja na região que ele acabara de confirmar no Senhor estava sendo influenciados por “outro evangelho”. O fato de ser outro “evangelho” deixa claro que são cristãos que ensinaram uma ‘nova’ roupagem do cristianismo. Os debates anteriores em Atos 11,14-15 e Gálatas 1 mostra que haviam facções de judeus-cristãos (das seitas dos fariseus – At.15:5) que acreditavam em uma aceitação ao cristianismo diferente do que Paulo. Os detalhes não nós é informado no Novo Testamento mas alguns fatores são descritos.

Em Atos 15:5 o ponto levantado pela seita dos fariseus é que era “necessário circuncidá-los e determiunar-lhes que observassem a lei de Moisés.” Em Gálatas o assunto da circuncisão é usado por Paulo e explicado por ele como não sendo obrigatório para a salvação dos gentios (mais detalhes no futuro). Ao escrever aos Gálatas outro ponto de divisão é sugerido, o de judeus partilhar com gentios refeições.

Jesus havia sido condenado de impureza ritual anteriormente pelos fariseus. Pedro não queria nem entrar na casa de Cornélio, e agora ele comia com gentios até os rígidos cristãos de Jerusalém chegarem. “Por fim veio a apartar-se temendo os da circuncisão”. (Gal.2:12) É bem provável que esses “da circuncisão” sejam os mesmos de At.15:5 e que mais tarde espalharam suas teorias nas igreja da Galácia após Paulo confirmar os cristãos nessa região.

Assim temos o assunto de leis de purificação judaica e circuncisão bem latentes como pano de fundo da carta. Mas o que significava mesmo esse rituais? Quais os valores atribuidos pelos judeus e cristãos a esses ritos? Qual a relação com a salvação em Cristo? Seria o evangelho de Paulo o mesmo dos apóstolos em Jerusalém?

Essas indagações são importantíssimas ainda hoje e precisam ser respondidas. Mas isso deixaremos para depois. O fato é que Paulo ao saber da influencia desses judaizantes em Gálatas se enraivesse e escreve sua mais dura carta. Para Paulo os cristãos em Gálatas estavam correndo o risco de perderem a salvação por acreditarem em outro evangelho.

Comunicação divina de hoje:  Quão o evangelho que acreditamos? Como o nosso passado tem influenciado em nossas crenças e interpretações da bíblia? Acreditar no que a Bíblia afirma não é tão simples quanto o que parece. Creio que devemos investigar mais o significado de lei, tradições e graça afim de não corrermos o risco de perdermos o rumo como os Gálatas.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Començando lição de Gálatas

Owo! Que propício essa lição sobre Gálatas. Falar sobre lei, liberdade, culto, ritos, missão e tensão. Vamos continuar donde deixamos no último comentário sobre adoração na igreja primitiva. No último texto investiguei a mudança teológica que a vinda de Jesus trouxe aos judeus-cristãos. E com essa mudança o que foi modificado no culto, salvação e missão.
Centrais à essas mudanças estão Paulo, Estêvão, Pedro, Cornélio e o concílio de Jerusalém.  Escrevi anteriormente que:
“na prática o que Tiago deixou claro é que os costumes judeus da época não deveriam ser padrão para todos. Mas que deveriam ser mantidas os princípios de culto gerais do Antigo Testamento que envolve tanto Israelitas como estrangeiros, como Levíticos 17-19. ...Parece que os cristãos da época de Paulo demoraram para entender tais ideias. No livro de Gálatas e Romanos Paulo continua a debater sobre tais assuntos. E em Atos 18, em sua segunda viagem missionária, após o relato Lucano do concílio de Jerusalém,  encontramos Paulo debatendo novamente esse assunto.”
O que deveria continuar ou não nos rituais do santuário em relação a vinda de Jesus Cristo? Qual a importância e relevância da lei ou leis do Pentateuco após o Messias? Sobre essas importantes questões aprenderemos ainda mais nesse trimestre. Mas, como sempre, nesse tipo de estudo focando em um livro a lição da escola sabatina começa com uma introdução histórica sobre o autor.
O papel de Jesus nisso tudo
Já vimos que a vinda de Jesus mudou os paradigmas de muitos judeus. É importante entendermos essas mudanças à luz do livro de Atos, pois é sobre essa mudança que Paulo escreve o livro de Gálatas. Mas isso veremos nas próximas semanas.
O livro de Atos começa onde o evangelho de Lucas termina. O último capítulo de Lucas é sobre a ressurreição de Jesus (v.1-12), o diálogo de Jesus no caminho para Emaús (v.13-35), a aparição aos apóstolos (v.36-49), e sua ascenção (v.50-53). Que a ressureição ocorrida no domingo é algo espetacular, fisicamente falando, e dispensa comentários. Mas relacionado a um Messias morto como um criminoso é ainda mais, teologicamente falando.
Tanto que como bons judeus, os dois discípulos que  voltaram tristes das festividades pascoais aos seus lares questionaram a identidade de Jesus. E de acordo com Cleopas, Jerusalém inteira fazia o mesmo questionamento (v.18). “Ora nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam.”
“Ele quem havia de redimir a Israel”. O que eles estavam dizendo? Para cristãos quase 2 milênios depois, tal pergunta parece ser tão simplória. Por causa de nossa rica tradição evangélica (dos Evangelhos-Novo Testamento), a salvação pela morte de Jesus é segunda natureza. Mas para judeus do século 1 não era bem assim. O que envolvia a redenção e qual a relação com Paulo, Pedro e o livro de Gálatas?
A tradição judaica  contava a seguinte história: há milhares de anos atrás o Deus Todo-Poderoso resolve criar o universo, e dentre eles o planeta com animais e seres humanos. Todos teriam vida sem fim se confiassem em Deus, obedecendo-o. A ordem era clara, não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ouvindo a serpente Eva e seu esposo viraram as costas à ordem divina e criaram suas próprias realidades.
No final das contas, eles descobrem não somente que estavão nus, mas também que Deus estava certo e a serpente errada. Descobrem também que Deus dá uma segunda chance por meio do sacrifício de uma animal cuja pele os cobre. Mas não somente isso, eles aprendem que esse sacrifício seria um descedente da mulher, e que guerrearia contra os descedentes da serpente e finalmente destruiria o pecado (Gn.3:15).
Apesar de Eva esperar ser Caim o tal descedente, sua esperança foi parcialmente frustrada. Mas não fora somente Eva que se decepcionou com a esperança dada pelo Criador. Com poucos detalhes sobre tal salvador, Deus apenas havia informado Eva que seria um descendente, não o primeiro, nem quando, ou onde. Nos filhos de Noé Deus afunila sua predição, limitando tal promessa aos filhos de Sem (Gn.10:27). Com Abraão e Davi mais detalhes são adicionados.
Com Abraão a salvação da humanidade ganha contornos específicos. Em Gn.12 a salvação do mundo se torna bem familiar, “em ti serão benditas todas as famílias da terra.” Pelos filhos de Abraão viria o descendente esperado. E junto com a salvação uma terra e uma nação. Para aqueles dois judeus de Emaús ser judeu era fazer parte do único povo divino. Mas sobre o fim do pecado... anos vão e vem, Jacó, José, Moisés e nada de fim do pecado, pelo contrário, coisas parecem só piorar.
Com Moisés e a saída do Egito, os descedentes de Abraão ganham status de povo escolhido de Deus, uma nação de sacerdotes, povo santo. Mas a promessa é condicional, como foi no Éden . “Se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então...”  Depender de Deus obedencendo aos Seus mandamentos, além da escolha soberana divina os tornava meios por quais todas as famílias da terra seriam abençoadas.
Centenas de anos passam, coisas ruins acontecem assim como coisas boas, mas nada do esperado descedente aparecer. Israel decide ter um rei. Por meio do segundo rei, Davi, Deus revela a Seu povo novamente Sua promessa, com mais detalhes sobre o tal descendente. Ele será o filho do Rei Davi, e estabelecerá o reino de Israel para sempre (II Sm.7:8-17).
Certamente a princípio Salomão criou grandes espectativas na mente dos Israelitas. Como Eva e os dois discípulos a caminho de Emaús tal esperança se tornou rapidamente em grande decepção. Caim, Salomão e Jesus morreram e a vida contiuava a mesma, quer dizer, pior porque Deus ainda não cumprira Sua promessa.
Promessa essa que fora detalhada ainda mais com os profetas. Não afirma Isaías que o renovo de Davi destruiria os inimigos de Israel?! E que Ele purificaria Jerusalém de toda imundícia e resplandeceria em glória, reinando para todo o sempre!? Trazendo de todas as nações da terra o restante de Seu povo para reinar juntamente com eles (Is.4,11, 65 e 66)?!

Como conciliar tais profecias sobre um reino eterno com um filho de Davi  que morreria mas que reinaria para sempre e destruiria todos os inimigos políticos?


Com toda essa tradição em mente, e com grandes esperanças instigadas pela pregação de João Batista e os ensinos e milagres do carpinteiro de Nazaré, milhares de judeus esperavam ser Jesus, o Cristo. Mas esse Jesus, a quem esperavam ser o que redimiria a Israel, morrera já fazia 3 dias, e os opressores romanos continuam como antes. Mais uma decepção! Porém note a resposta de Jesus.

“Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Não convinha que Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lc.24:25) Qual foi a parte que Jesus afirmou ser ignorada pelos discípulos? A morte e a glorificação do Messias.  Is.53, junto com a parte da ferida do calcanhar do descedente, à luz do sacrifício no santuário não entendida.
Essa falta de entendimento não era de todo estranha, penso. Como conciliar tais profecias sobre um reino eterno, com um filho de Davi que reinaria para sempre e destruiria todos os inimigos políticos com alguém que morreria? Essa conciliação entre santuário, sacrifício e salvação não era bem explicada na mentalidade judaica aparentemente.
E mesmo depois da explicação de Jesus aos dois naquele domingo, e em seguida ao restante dos discípulos em Jerusalém, tal assunto não fora resolvido completamente. Isso demoraria anos, posso até dizer milênios, se considerarmos que nem todas as implicações de tal mensagem fora explicada no cristianismo.
Quando Paulo entra nessa história
A tentativa de resolução desse problema é percebida claramente (mas não somente) na história de Cornélio e Pedro, e em seguida Paulo com sua viagem missionária e o Concílio de Jerusalém. Ambas histórias se relacionam com a história de Estévão de alguma maneira.
Já vimos que o judeu de origem grega (heleno ou da diáspora), Estêvão, movido pelo Espírito Santo discutia as Escrituras com judeus em Jerusalém. De acordo com Lucas alguns entenderam Estêvão como os sacerdotes entenderam Jesus, falando contra o lugar santo e a sua lei. Contra o santuário e seus ritos. Como não temos o que Estêvão falou, devemos buscar o que Jesus afirmou sobre o assunto.

Essa conciliação entre santuário, sacrifício e salvação não era bem explicada na mentalidade judaica aparentemente.


Em João 2, ao remover os comerciantes do pátio do templo, Jesus afirmou que destruiria o santuário em três dias e o reconstruiria. Sobre essa base o sumo-sacerdote acusa Jesus e o mata. Mas João explica que Jesus se referia ao Seu corpo. Se Jesus disse ser Seu corpo o santuário, e João Batista O chamou de Cordeiro de Deus, podemos deduzir algumas coisas.

Primeiro, a morte de Jesus destruiria de alguma forma o templo. Segundo Ele era o cumprimento da promessa do sacrifício de Deus em Gn.3 e que dava significado ao santuário. Assim, à luz de Is.53, o Cristo daria fim/finalidade aos rituais do santuário, providenciando salvação a todos por meio de Sua morte vicária. Não eram esses os elementos que Jesus afirmava faltar nos discípulos de Emaús? Parece que com Estêvão os cristãos estavam aprendendo tal relação.
Relação essa que inclui Paulo na história desse entendimento. Pois ele é visto na cena do debate e crime de Estêvão (At.8:1). E após a sua conversão é relacionado também com o mesmo grupo de Estêvão, os judeus helenistas (9:29). E é Paulo ,que por meio de sua perseguição aos cristãos em Jerusalém, espalha-os para pregar o evangelho (8:1-8). Note que Felipe é o primeiro relato de pregação fora do ciclo de Jerusalém. E depois temos Paulo em Damasco e Pedro em Jope.
Nesse ponto a relação entre cristãos-judeus e gentios estavam se estreitando. Não que isso não ocorria. Era normal um judeu conviver com outras pessoas, falar de sua religião a elas e até aceitá-las como judeus conversos. Mas tal conversão incluia, no caso masculino, circuncisão e participação nos ritos do templo. Pois essa era a marca dos escolhidos filhos de Abraão. Aos que não queriam a circuncisão, prática abominada pelos romanos, mas que adoravam o Deus de Israel e participavam do culto na sinagoga, os judeus consideravam tementes a Deus.
Mas na visão do lençol e no encontro com um temente a Deus essa visão seria desafiada. Em At.10 Deus deixa claro a Pedro que gentios eram também povo de Deus. E com a presença do Espírito Santo em Cornélio e sua família, Pedro reconhece que mesmo sem circuncisão os que creem em Jesus como Cristo (o descendente da promessa) são aceitos e salvos por Deus.
Ao ouvir essa e outras histórias de gentios incircuncisos recebendo o Espírito, judeus-cristãos de Jerusalém (não helenos) intimam Pedro a se explicar (11:1). Ao contar sua experiência, Pedro iguala a experiência de conversão de tais gentios com a dos apóstolos em Jerusalém com base no Espírito, e não no rito de cortar parte da pele do pênis.
“Quando comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio...Pois se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?” (v.15,17)
O resultado é positivamente aceito pela igreja em Jerusalém, mas o livro de Atos e de Gálatas revelam que a aceitação não foi unânime. Esses da “circuncisão”, alguns indificados por Lucas como fazendo parte da “seita dos fariseus” (15:5), outrora grupo de Saulo, levantam a questão novamente, agora com uma aceitação ainda maior de gentios com a pregação de Paulo.
Note que a questão é a mesma, ainda não compreendida por toda a igreja. A relação entre salvação e, na linguagem de Lucas, “o costume de Moisés” (v.1).  Qual o papel da lei de Moisés e dos rituais judaicos ordenados por Deus como símbolo do povo santo com a vinda de Jesus, o Cristo? O fato é que o concílio de Jerusalém decide que os gentios são aceitos pela igreja sem o rito da circuncisão, mas
que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitasç destas coisas fareis bem se vos guardardes.”  (v.29)
Mas novamente, como no caso de Pedro e Cornélio, a aceitação estava longe de ser unânime e resolver o problema de uma vez. Isso porque, o que me parece, teologicamente a igreja cristã da época  ainda não tinha refletido suficientemente sobre as implicações da vinda, morte e ascenção de Jesus como Messias.
Comunicação divina dessa semana: É isso que Paulo faz em Gálatas, livro de nossa reflexão esse trimestre. O que aprendi com essa semana é que nem sempre é fácil desvencilhar de nossas tradições, principalmente se elas estão baseadas de alguma forma na Bíblia. Mudança na igreja requer tempo, missão e abertura para discussão. Creio que a Igreja Adventista e o Cristianismo em geral fariam bem se envolvessem mais em missão e discutissem abertamente as implicações da Pessoa de Cristo na estrutura da igreja e na salvação de toda a humanidade.