Translate

sábado, 2 de maio de 2020

A formação do cânon - algumas reflexões históricas


Qual era a Bíblia de Jesus?


“Toda escritura é inspirada por Deus...” escreveu Paulo a Timóteo. O fariseu, agora cristão, escreveu uma carta cheia de conselhos ao companheiro mais novo no ministério da pregação do evangelho. Admoestando-o contra o perigo de falsos ensinos, Paulo recomendou Timóteo a permanecer naquilo que havia aprendido pelas “sagradas escrituras.” (v.14-15). Mas que escritos eram esses? Qual era a Bíblia na época de Paulo?

Um livro
Primeiramente, na época de Paulo ou Jesus a Bíblia não incluia o que chamamos de Novo Testamento, pelo motivo óbvio de ainda não ter sido escrito. Como eram Israelitas, devemos entender quais escritos eles consideravam sagrados para responder a pergunta do título sugerido acima.[1]

A palavra bíblia vem do Grego e significa basicamente livros. A Bíblia é um livro, meio óbvio. É importante entender, no entanto, que os livros na antiguidade não eram produzidos como os livros de hoje. Na época de Jesus os materiais mais usados na manufatura de livros na região do Mediterrâneo eram o papiro e o pergaminho.[2] Semelhante ao papel, o papiro advinha de fibras vegetais, enquanto que o pergaminho, de pele de animal. Embora mais caro, o pergaminho era mais maleável e duradouro. Ambos no entanto, possuíam suas limitações técnicas se comparados com os livros de papel hoje. Pela natureza do material, o papiro era bem frágil e o pergaminho era relativamente grosso. Os livros na antiguidade eram relativamente difíceis de serem produzidos e carregados. Os textos nesses meios eram enrolados ou empilhados com costura até certa espessura e preservados em vasos, enrolados em tecido ou no caso de bibliotecas, organizados aparentemente em estantes.[3]

Quando pensamos na Bíblia da época de Jesus como um livro não podemos visualizá-lo com papel bem fino e costurado com uma capa de couro preta. Precisamos imaginar um longo pedaço de couro ou papiro, podendo chegar até cerca de oito metros de cumprimento.[4] Isso porque o pedaço de papiro ou pergaminhos, de cerca de 45cm de cumprimento por 25cm de espesura, eram costurados, quando necessários, para formar um grande livro como o do profeta Isaías. Foi justamente esse tipo de livro que foi dado a Jesus para ser lido na sinagoga de Nazaré. “Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. Abriu-o e encontrou o lugar onde está escrito” (Lucas 4:17).

Para visualizar como era feita a leitura, basta ir à uma sinagoga e observar como ainda hoje o rolo da Torá é lido pelos Judeus. A natureza do material não permite um manuseio rápido como um virar de página de um livro atual. O que vemos é um devagar desenrolar e enrolar para expor o texto desejado, como um documento de texto num computador. Outra observação relevante é que seria impossível ter todo o conteúdo da coleção que chamamos Bíblia Hebraica (Antigo Testamento) em um único rolo. Quando visualisamos vários rolos dentro de recipientes num chão de uma sinagoga podemos facilmente entender que o acesso ao material que hoje conhecemos como Bíblia era bem diferente. Hoje podemos ler e realizar pesquisas de palavras em milhões de livros eletrônico com um toque, o que no tempo de Jesus não era possível.

A coleção
A maneira como os livros eram produzidos na antiguidade influenciou a maneira como a Bíblia fora formada e compreendida. Como observei acima, sua materialidade impossibilitava uma coleção de livros num único volume como a que possuímos. O que convencionalmente chamamos de Bíblia é uma antologia ou coleção de vários escritos de autoria e períodos diferentes. Alguém teve que juntar tudo isso. Sabemos que no decorrer da história tanto Israelitas como Cristãos preservaram diferentes coleções de escritos sagrados com números diversos de livros.[5] Quando observamos o processo de preservação de escritos na antiguidade, vemos que os reis e sacerdotes eram os principais responsáveis por produzir e colecionar documentos. Os escribas eram, em sua maioria, trabalhadores da corte e sacerdotes.[6]

“Nas relações (arquivos) e nas memórias do tempo de Neemias, contavam-se os mesmos feitos e como também ele formou uma biblioteca, reunindo tudo o que se referia aos reis e aos profetas, os escritos de Davi e as cartas dos reis a respeito das oferendas. Do mesmo modo, Judas reuniu todos os livros espalhados pelas guerras que sobrevieram, e essa coleção se encontra em nosso poder. Por conseguinte, se tendes necessidade de um desses livros enviai-nos mensageiros que vo-los levarão.” (2 Mac 2:13-15)[7]

Em Qumran, no deserto da Judeia, próximo ao Mar Morto, foi encontrado a única biblioteca de livros Israelitas datada da época de Jesus. Uma informação valiosa para a reconstrução histórica do que seria as “sagradas escrituras” dos Israelitas nesse período. Quanto aos livros que compõem a coleção bíblica Massorética-Farisaica, que é a seguida por muitos Protestantes hoje em dia, os Manuscritos do Mar Morto mostram que quase todos eles, com exceção de Ester, já eram considerados sagrados por um grupo de Israelitas. Além desses livros muitos outros documentos também eram considerados sagrados, como o livro de Enoque (citado em Judas 9) e Jubileu. Sabemos disso pois esses escritos são mencionados por documentos de Qumran como a palavra do Senhor. Além disso, é importante mencionar que as cópias de textos “bíblicos” como o do profetas Isaías, não eram identicas. O texto era maleável.

Já a coleção de documentos sagrados preservados pelos Judeus, e posteriormente pelos Cristãos no Egito, a Septuaginta (LXX) também não se limitava aos livros do cânon Farisaico ou Protestante. Temos então evidência de quais documentos eram considerados sagrados pelos Israelitas, como Paulo sugeriu para Timóteo? Não dá para se ter certeza dos detalhes, mas as evidências sugerem uma certa coleção.

A referência mais antiga de coleções de livros sagrados em Israel vem dos Manuscritos do Mar Morto. Num documento datado possivelmente do 3º século AEC, lemos “o livro de Moisés [e] o livro[s dos pro]fetas e Davi.”(4Q397 [MMTa]:14-21.10). Do 2º século AEC, no texto acima de 2 Macabeus 2, o autor menciona documentos coletados por Neemias acerca dos reis, profetas, e "os escritos de Davi e as cartas dos reis" após já haver mencionado, por nome Jeremias, e a Lei (vv.1-2). Se confiável, temos evidência, então, de uma coleção de livros atribuídos a Davi e aos profetas já no 5o século AEC. Como 2 Macabeus, também do 2o século, lemos no prólogo do livro de Sabedoria (Eclesiásticos) de Jesus (Josué), coletado pelo pelo seu neto, o filho de Sira (ben Sirach), sobre a leitura da "lei, dos profetas, e de outros (ou demais) livros de nossos ancestrais." É curioso notar que o autor afirma que a leitura desses livros traria instrução e sabedoria, semelhante ao que Paulo escreveu a Timóteo (2 Tim 3:16-17).

O que podemos certamente inferir dessas referências sobre coleções de livros sagrados anterior a Jesus e Paulo[8] é que a Lei (em Hebraico, Torá) já era idenficada com Moisés e tinha preeminência. Além do Pentateuco (do Grego, cinco rolos), somos informados de uma coleção atribuída a Davi, possivelmente os Salmos, e outra coleção atribuída aos Profetas. Curiosamente, em Eclesiásticos, Davi não é mencionado, e sim, “outros escritos.” É possivel aqui já identificar algo parecido com a divisão de livros na Bíblia na tradição judaica (farisaica): a Lei (Torá), os Profetas (Neviim), e os Escritos (ketubim). Essa é a TaNaKh, um acrôstico com as letras iniciais do título de cada coleção.

Como as referências acimas não especificam quais livros compunham tais coleções, não seria prudente ser categórico quanto aos detalhes, mesmo porque a Septuaginta e a biblioteca de Qumran possuem mais livros do que eventualmente seriam chamados de Bíblia. Mas é importante perceber que, pelo menos, as coleções ou categorias de escritos já eram amplamente formulados antes de Timóteo. E são basicamente essas coleções, a Torá (Moisés), os Profetas e os Salmos (Escritos?), que são mencionados por Jesus na estrada de Emáus (Luc 24:44).

A primeira menção histórica a uma lista de livros, não apenas coleções, é feita pelo historiador Judeu do 1º século Josefo (Contra Ápion 1:38-42). Ali lemos sobre vinte e dois livros que contém toda a história dos Hebreus e são considerados divinos (linha 38). Cinco são atribuídos a Moisés. Josefo continua descrevendo que do período da morte de Moisés até a Pérsia lê-se nos profetas compostos de treze livros, e os demais quatro livros são coleções de hinos e sabedorias. Esse texto é de fundamental importância na história da formação da coleção que chamamos Bíblia, pois testifica da solidez da tradição Israelita em preservar tais escritos. Nele também encontramos a natureza da seleção, documentos sobre a história de Israel, dizeres éticos e textos litúrgicos, sobre a qual elaboro mais abaixo. Mas também aqui não somos informados de todos os detalhes de quais livros compunham a lista dos Profetas e demais livros.[9]

Pelo menos temos em Josefo um número aproximado com que trabalhar nossas especulações. Digo aproximado porque em 4 Esdras 14:44-46, texto também do 1º século, somos informados de vinte quatro livros que deveriam ser lidos pelos Israelitas e de outros setenta livros que apenas os mais doutos deveriam ler. Na tradição Massorética-Farisaica, da qual herdamos a Bíblia Hebraica ou Antigo Testamento, são vinte e quatro livros, enquanto que na coleção mínima dos Protestantes são trinta e nove, embora os documentos sejam os mesmos. A diferença se dá pela maneira de organizá-los. Por exemplo, todos os Profetas Menores na tradição Israelita são identificados como um único livro, assim como os volumes duplos de Samuel, Reis e Crônicas são considerados um livro cada. As listas formuladas pelos Cristãos até o 5º século, feitas em contato com Judeus na terra de Israel, também são aproximadamente esse número (entre vinte dois e vinte e quatro).

As diversas coleções com sequências diferentes (ver tabela) demonstram a natureza maleável da organização desses livros.[10] Tendo em vista como livros eram manufaturados dá para entender a razão. O que enfatizo aqui é que, apesar de uma certa coletânea estável de livros sagrados, Judeus e Cristãos entre os séculos 2 e 5 ainda manipulavam sua ordem, principalmente a dos Profetas e dos Escritos, além do debate se um ou outro livro, como Ester, deveria fazer parte (Mishna m. Yadayim 3:5).[11] Isso possivelmente se deu por causa do desenvolvimento litúrgico em várias regiões.

O papel da liturgia no Cânon
A passagem de Josefo acima mencionada (Contra Ápion 1:38-42) mostra a natureza da seleção dos escritos sagrados. A Torá tem papel preponderante. A história Israelita e os oráculos proféticos serviam, então, de comentários a Lei, expandindo sua mensagem. E enfim, textos com prece, louvor e sabedoria completavam a coleção. Nesse processo de formação física das “sagradas escrituras” temos, por certo, que os vinte e quatro livros da tradição Massorética-Farisaica eram aceitos pela maioria dos Judeus, o que seria possível também a coleção referida por Jesus. Textos da leitura na sinagoga encontrados no Novo Testamento confirmam tais observações. Sobre a preeminência da Torá, lemos em Atos 15:21 que Moisés é lido na sinagoga todos os sábados. Nenhuma outra coleção é mencionada. Junto a isso temos a tradição de que os Saduceus e os Samaritanos se atinham apenas à Torá.[12]

A maioria dos Judeus, no entanto, além da leitura da Torá, suplementavam com a leitura dos Profetas. Lemos sobre essa prática tanto na terra de Israel (e.g., Nazaré em Luc 4:16-20) como também fora dela na Diáspora (e.g., Atos 13:14-15). A leitura da Torá (Lei) era algo estabelecido na religiosidade Israelita (e.g., Deut 31:9-11; Ne 8:18; 2 Reis 23:1-3), e parece que algo como um comentário dos demais escritos seguia a leitura da Torá já na época de Neemias (9:14, 26, cf. Atos 13:14-15). O comentário tinha o intuito de explicar a Torá, a palavra de Deus por excelência. Parece razoável inferir que, com o passar do tempo, demais escritos usados como comentários à Lei foram considerados também divinos. Esses comentários davam legitimidade e clareza aos dizeres antigos do Senhor Deus de Israel (cf. Prólogo de ben Sirach).

Conclusão
Quais então eram as “sagradas escrituras” que Paulo recomendou à Timóteo? Pela história acima e as citações encontradas em nos escritos do que se tornou Novo Testamento,[13] podemos inferir que pelo menos a coleção do Pentateuco, alguns profetas e Salmos era o que Paulo tinha em mente. Mas não devemos pensar em livros com textos fixos e uma coleção determinada de títulos chamado Bíblia. Ao contrário de muitos Cristãos e Judeus que a partir da Idade Média idealizavam a Bíblia como um livro com um texto imutável, a palavra de Deus para os Israelitas da época de Jesus era mais maleável.[14] O que mais importava não era um texto fixo, e sim, um grupo de escritos que trazia uma reflexão sobre a maneira que Deus havia guiado o Seus povo e dava certa direção e propósito quanto ao futuro.

TABELA 1: Lista de livros da Bíblia entre os II-V séculos

Melito of Sardis (Eusébio Cesareia, História Eclesiástica 4.26) II/IV EC
Lista de Bryennios
II/XI EC

Orígenes
III EC

Jerônimo V EC
Gênesis
Êxodo
Números
Levítico
Deuteronômio
Josué
Juízes
Rute
4 Reinos (Samuel and Reis)
Crônicas
Salmos
Provérbios/ Sabedoria
Eclesiastes
Cantares
Isaías
Jeremias 
Os Doze (Profetas Menores)
Daniel
Ezequiel
Esdras

Gênesis
Êxodo
Levítico
Josué
Deuteronômio
Números
Rute
Juízes
Salmos
4 Reinos (Samuel and Reis)
Crônicas
Provérbios
Eclesiastes
Cantares
Jeremias 
Os Doze (Profetas Menores)
Isaías
Ezequiel
Daniel
Esdras
Ester

Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
Josué
Juízes-Rute
4 Reinos (Samuel and Reis)
Crônicas
1-2 Esdras (Esdras-Neemias)
Salmos
Provérbios
Eclesiastes
Cantares
Isaías
Jeremias  –Lamentações – Carta de Jeremias
Daniel
Ezequiel
Ester
Macabeus
*Os Doze (Profetas Menores?)

Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
Josué
Juízes
Rute
4 Reinos (Samuel and Reis)
Isaías
Jeremias 
Ezequiel
Os Doze (Profetas Menores)
Salmos
Provérbios
Eclesiastes
Cantares
Daniel
Crônicas
Esdras (Esdras e Neemias)
Ester


TABELA 2: Lista de livros da Bíblia na tradição Judaica

Torá
Neviim (Profetas)
Ketuvim (Escritos) *Bíblia Hebraica Stuttgartensia
Gênesis
Êxodo
Números
Levítico
Deuteronômio

Josué
Juízes
Rute
Samuel (1 e 2)
Reis (1 e 2)
Isaías
Jeremias 
Ezequiel

Jeremias 
Ezequiel
Isaías (Talmude Babilônico, Baba Bathra)

Os Doze (Profetas Menores)
Salmos
Provérbios
Rute
Cantares
Eclesiastes
Lamentações
Ester
Daniel
Esdras-Neemias
Crônicas (1 e 2)


TABELA 3: Lista de livros da Bíblia na tradição Judaica, diferentes sequências dos Ketuvim (Escritos)

Ketuvim (Escritos)
Septuaginta (LXX)
Talmude Babilônico, Baba Bathra
Megillot (5 rolos)
Salmos
Provérbios
Eclesiastes
Cantares
Rute
Salmos
Provérbios
Eclesiastes
Cantares
Lamentações
Daniel
Ester
Esdras-Neemias
Crônicas (1 e 2)

Rute
Cantares
Eclesiastes
Lamentações
Ester
(Bíblia, Jewish Publication Society, 1917)

Cantares
Rute
Lamentações
Eclesiastes
Ester
(Bíblia, Jewish Publication Society, 1985)





[1] Para um resumo sobre o cânon bíblico numa perspectiva Adventista ver Gerald Klingbeil, “O Texto e o Cânon das Escrituras,” pp. 91-110 em Compreendendo as Escrituras: Uma Abordagem Adventista, ed. George W. Reid (Engenheiro Coelho, SP: Unaspress, 2007). Embora informado, o objetivo de Klingbeil é mais amplo que o meu objetivo aqui nesse artigo, ele resume os passos históricos na formação de toda a Bíblia incluindo o Novo Testamento. Ele não se demora nos detalhes da formação da Bíblia Hebraica (Antigo Testamento), além de assumir uma posição questionável sobre a relação entre cânon e escritos sagrados no tempo de Jesus. Para uma avaliação mais coerente historicamente ver Timothy H. Lim, “Authoritative Scriptures and the Dead Sea Scrolls,” pp.303-322 em The Oxford Handbook of the Dead Sea Scrolls, ed. John J. Collins e Timothy H. Lim (New York, NY: Oxford University Press, 2010); Molly M. Zahn, “Rewritten Scriptures,” pp.323-336 em ibid.

[2]  Se tomado o exemplo dos Manuscritos do Mar Morto, dependendo de com realiza-se o cálculo, cerca de 90% do manuscritos estão em pergaminhos. Para um estudo recente avaliando os Manuscritos do Mar Morto na perspectiva da produção literária do antigo Oriente ver Sidnie W. Crawford, Scribes and Scrolls at Qumran (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2019).

[3] Crawford, Scribes and Scrolls, cap. 2; Larry W. Hurtado e Chris Keith, “Writing and Book Production in the Hellenistic and Roman Period,” pp.63-80 em The New Cambridge History of the Bible: From the Beginnings to 600, ed. James Carleton Paget e Joaquim Schaper (New York, NY: Cambridge University Press, 2013).

[4] Como o rolo do Templo (11Q19).

[5] Para a lista de livros em diversos cânones bíblicos no Cristianismo ver

[6] Crawford, Scribes and Scrolls, cap. 2 e 3; William M. Schniedewind, “Writing and Book Production in the Ancient Near East,” pp. 46-62 em The New Cambridge History of the Bible. Por exemplo, Baruque como escribe do profeta Jeremias, e Esdras, um sacerdote escriba.


[8] Poderia ter adicionado a passagem de Isa 8:16 e 20 que menciona o ensino do profeta baseado no testemunho (teudah) a na instrução (torah). É possível que a torah aqui já poderia ser a coleção dos cinco atribuídas a Moisés. Quanto aos testemunhos é incerto.

[9] Perceba a semelhança com a nomenclatura usada por Eclesiásticos: Torá, Profetas, e demais livros.

[10] Para uma recente discussão do cânon da Bíblia Hebraica ver Timothy H. Lim, The Formation of the Biblical Canon, The Anchor Yale Bible Reference Library (New Haven, CN: Yale, 2013). para um resumo e implicações ver cap. 10. O mais completo estudo sobre o cânon é o de Lee Martin McDonald, The Formation of the Biblical Canon, 2 vols. (Edinburgh: T&T Clark, 2017).

[11] Curiosamente é conhecido a ausência de Ester nos Manuscritos do Mar Morto e no Novo Testamento.

[12] Sobre os Saduceus ver Josefo, Antiguidades 13:297-298, e para os Samaritanos ver Gary N. Knoppers, Jews and Samaritans: The Origins and History of Their Early History (New York, NY: Oxford University Press, 2013), 178-194. Em geral sobre a leitura de textos sagrados na liturgia da sinagoga e sua influência na formação do cânon ver Charles Perrot, “The Reading of the Bible in the Ancient Synagogue,” pp.136-159 em Mikra: Text, Translation, Reading & Interpretation of the Hebrew Bible in Ancient Judaism & Early Christianity, ed. Martin Jan Mulder (Peabody, MA: Hendrikson, 2004).

[13] Ver Gregory K. Beale e D. A. Carson,  Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (São Paulo, SP: Vida Nova, 2014).

[14] James L. Kugel, “The Emergence of Biblical Interpretation in Antiquity,” pp. 25-45 em Interpreting Scriptures in Judaism, Christianity and Islam: Overlapping Inquiries, ed. Mordechai Z. Cohen e Adel Berlin (Cambridge: Cambridge University Press, 2016).


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Páscoa


Shalom!

É o feriado de Pessach (Páscoa) e da Hag HaMatzot (Semana dos Pães Asmos). 

Aproveito esta oportunidade para refletir sobre o significado desses tempos sagrados. Nos próximos dias, leia os 18 primeiros capítulos do livro de Êxodo para apreciar o motivo da temporada. Abaixo algumas das minhas reflexões sobre isso.

No livro de Êxodo, a história começa com os Israelitas em escravidão depois que um governante perverso (Faraó) chegou ao local que ignorou o papel de José na libertação agrícola do Egito durante a seca. Os filhos de Jacó, que haviam ido ao Egito, escapando da esterilidade, agora se encontravam em uma inesperada situação de escravidão. Eles clamam a Deus, mas parece que Deus os havia abandonado. Mas apenas apareceu. As damas de Israel se tornam férteis e os Israelitas produzem tantos filhos que até o faraó é ameaçado. Outra circunstância triste, no entanto, está a caminho. Os bebês são executados pelos soldados egípcios. Parece que a esterilidade era o destino deles. Enquanto isso, Deus resgata o bebê Moisés, que serviria como um sinal do que Ele faria com Seu filho Israel.

Novamente, eventos infelizes aconteceram e Moisés teve que deixar o Egito. Por quarenta anos, os Israelitas vivem em escravidão e Moisés no deserto, uma terra árida. Talvez seja um sinal da amnésia e do abandono de Deus. Mas apenas pareceu. No devido tempo, Deus aparece. Moisés é enviado ao Faraó com a mensagem: "Deixe meu povo ir!" Não seria assim tão fácil. Depois dos sinais de Moisés transformando a água em sangue e um pau em uma cobra, parece que o Faraó ficaria convencido. Mas apenas pareceu. Foram necessárias dez pragas e a morte dos primogênitos dos egípcios para quebrar a teimosia do faraó e as dúvidas dos Israelitas.

Na última manifestação do poder de Deus no Egito, é ordenado aos Israelitas que eles fizessem uma refeição especial enquanto a morte pairava do lado de fora de suas casas. O anjo do SENHOR tiraria a vida do primogênito daqueles que não seguissem as detalhadas instruções. Um cordeiro deveria ser abatido e seu sangue colocado em seus batentes de porta para apagar a memória da escravidão e cultura egípcias, ao mesmo tempo em que fornecia uma nova identidade aos participantes da refeição. Naquela noite, eles seriam entregues. Não havia tempo para levedar o pão. Eles comeriam bolachas sem fermento naquela noite, com cordeiro assado e ervas amargas. Eu posso imaginar a angústia e o alívio daquela noite fatídica. 

Enquanto eles comiam, a morte passava sobre os salvos pelo sangue do cordeiro. Mas a morte entrou nas casas daqueles que ignoraram o convite da misericórdia. Os prantos dos pais egípcios quebram o silêncio. É o clamor de incrédulos no que acabara de acontecer dentro de suas casas, por causa do excesso de confiança de seu líder.

Era primavera no Egito. Aquele era o tempo da nova vida. Mas apenas pareceu. A vida nunca mais seria a mesma. Quando as colheitas deveriam crescer, a terra foi devastada. Havia pouco que o Egito pudesse oferecer. Os Israelitas tiveram que procurar refúgio em outra terra, a prometida que fluía com leite e mel. Mas as expectativas falharam novamente. Eles primeiro tiveram que passar pelo deserto. Lá para ser alimentado por Deus. 

Embora pareça que a experiência da Páscoa foi o fim, apenas pareceu assim. A décima praga foi apenas o começo. Um reinício para um grupo de ex-escravos. Para aqueles Israelitas, a liberdade era maravilhosamente estranha. Eles tiveram que desaprender muitas coisas e aprender outras, se quisessem se afastar do Egito. A refeição da Páscoa se tornaria um lembrete das aparências fracassadas do poder humano e do momento perfeito de Deus.

Como comemoramos hoje a Páscoa, enquanto a morte paira fora com o Covid-19, não deixe que as aparências de desespero o assolem. Deus está no controle da história. Confie nele, ouça seus comandos e, no devido tempo, seremos também libertos.

 “Se vocês derem atenção ao Senhor, o seu Deus, e fizerem o que ele aprova, se derem ouvidos aos seus mandamentos e obedecerem a todos os seus decretos, não trarei sobre vocês nenhuma das doenças que eu trouxe sobre os egípcios, pois eu sou o Senhor que os cura.” (Êxodo 15:26)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Visões alternativas sobre as Trombetas do Apocalipse no Adventismo

Tendo em vista a lição da escola sabatina desta semana, apresento um resultado parcial de uma pesquisa que estou desenvolvendo sobre interpretação Adventista do Sétimo Dia sobre temas proféticos ainda em grande incerteza, ou textos que possuem várias interpretações dentre acadêmicos respeitados no Adventismo. Aqui me limito apenas as visões sobre as 7 trombetas do Apocalipse.

É importante notar que a lição apenas expõe, em um pequeno trecho (na Segunda-Feira), a interpretação histórica dessa sequência de símbolos apocalípticos com a observação de que as trombetas “se aplicam aproximadamente ao mesmo período das sete igrejas e sete selos.”  Aqui a lição da escola sabatina apenas apresenta uma interpretação das várias propagadas, e como é notado nos comentários abaixo, uma opinião mais recente no Adventismo. 

Curioso é perceber que, apesar do principal contribuidor ser o Ranko Stefanovic, a interpretação exposta na lição não é apresentada por ele em seu comentário. Essa discrepância acontece em outros lugares e aqui apenas noto que a lição da escola sabatina não possui um autor único. O que acontece é que um manuscrito é submetido por um autor escolhido pela comissão da escola sabatina da Conferência Geral, o qual é adaptado e modificado para o mundo de acordo com a mente dos editores. Assim, não podemos apontar quem especificamente é o responsável por tais decisões editoriais.

Abaixo me limito apenas às duas maneiras de interpretações mais comuns na literatura Adventista. Um artigo futuro dará mais detalhes sobre as nuâncias dessa história. Aqui me adianto com as conclusões parciais mais relevantes relacionadas às sete trombetas.Tabelas das interpretações


O primeiro gráfico abaixo (Tabelas das interpretações) mostra a interpretação mais antiga e, possivelmente, a mais aceita até meados da década de 1950. De acordo com LeRoy Edwin Froom, em sua obra exaustiva sobre a história da interpretação profética Adventista publicada em 1950, essa é a interpretação tradicional do Adventismo do Sétimo Dia. Tal versão foi modificada na década de 1940 tendo como principal expoente o eminente professor do Seminário Teológico na Universidade Andrews, o professor Edwin Thiele.

Comparando as duas tabelas (em anexo) está claro que a última trombeta termina com a 2ª vinda de Jesus. Mas como no próprio livro do Apocalipse não está tão claro onde a sétima trombeta toca (começa), os detalhes dessas interpretações são bem diferentes. Alguns sugerem uma data inicial (1844), outros não apontam nenhuma data.

A diferença mais marcante é encontrada nas interpretações das trombetas 1-6. No que diz respeito as trombetas 1-4, temos dois grupos:
(a)    Específicos: Cada trombeta representa uma tribo de bárbaros que destroem Roma Pagã –Alarico, Genserico, Átila e Odoacer (Juízo no Oeste Europeu)

(b)   Generalistas: 1T destruição de Jerusalém, 2T queda de Roma, 3T Idade Média[1], 4T Idade Média (varia do séc VI-XVI)
a.       Ranko Stefanovic se difere pois ele estende o tempo da 3ª Trombeta até o séc XV, quando o primeiro grupo coloca essa data apenas na trombeta 6 e os outros da segunda opinião na trombeta 4.

No que diz respeito às trombetas 5-6 encontramos:
(a)    Específicos: Poderes Islâmicos. A referência de tempo da 5a trombeta (5 meses) possui variações (612-762, 632-782, 1299-1449), assim como da 6ª trombeta (hora-dia-mês-ano = 391), que é aplicado entre os séc XI-XIX. Os mais comuns são 1281-1672 e 1453-1844

(b) Generalistas: Alguns continuaram a interpretação Islâmica (Thiele e Maxwell) proposta pelos pioneiros. A maioria no entanto, enxergam as trombetas 5 e 6 como representando poderes anti-Cristianismo como o secularismo e ateísmo desde aproximadamente a Reforma Protestante até o tempo do fim.  Como eles não aplicam o princípio dia-ano aos tempos dessas trombetas, não há tentativa de marcação de datas.

Percebi, em minha pesquisa, que o Edwin Thiele é provavelmente o autor Adventista mais influente nessa mudança de paradigma de interpretação profética. É apenas após sua interpretação (1950s) que a posição anterior perde força com poucos adeptos na década de 80. No entanto, ele não é seguido em todos os detalhes por intérpretes posteriores na sua aplicação das 5ª e 6ª trombetas. O que percebemos é que, após Thiele, o grupo que denomino de GENERALISTAS não mais aplicam o princípio dia-ano aos tempos mencionados nesses trechos. Isso abriu margens para uma leitura das trombetas como sendo julgamentos divinos ao Cristianismo como um todo, através de ideologias como o secularismo ou ateísmo, diferentemente de uma aplicação mais específica na história às instituições religiosas. O problema que vejo com a perspectiva mais recente é a inconsistência na aplicação do princípio dia-ano no historicismo.

Outro desenvolvimento relevante que percebo é acerca do significado das trombetas como um todo em relação aos 7 selos. A maioria dos intérpretes Adventistas enxergam nos selos uma descrição das perseguições sofridas por Cristãos e as trombetas como juízos divinos em resposta à essas perseguições em poderes apóstatas. Essa visão da função das trombetas é drasticamente modificada por aqueles que enxergam na 4 ou 5 trombetas o secularismo. Nesse caso as trombetas e o secularismo funcionariam não como juízo divino contra os perseguidores dos fiéis, mas um ataque satânico à verdade divina e seu seguidores. Há mais detalhes importantes que estou elaborando para uma futura publicação.

Finalizo apenas apontando para a realidade de que a Igreja Adventista do Sétimo Dia não possui nenhuma posição oficial e única sobre muitas porções proféticas como Daniel 11, Apoc 7-9 e 18. Apesar de apenas uma posição aparecer na lição da escola sabatina, isso não deve indicar uma visão única no Adventismo. Devemos continuar estudando as profecias com o zelo e interesse que os nossos pioneiros manifestaram, sempre mostrando cordialidade para com os nossos colegas que discordam de nossas opiniões. Se assim continuarmos evitaremos o perigo da complacência que pode causar o despreparo necessário para a volta de Jesus, o tema central do livro do Apocalipse.



[1]  Estrelas são interpretados como os líderes espirituais do Cristianismo à luz de Apoc 1-3.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O silêncio no céu em Apoc 8


Meses atrás meu irmão teve uma dúvida sobre Apocalipse 8:1 e elaborei essa resposta para ele. Depois descobri que o SDABC 7 (Comentário Bíblico Adventista) possui um ótimo resumo sobre o assunto, indicando que não há nada novo. Assim compartilho aqui minha resposta, espero que auxilie algum estudioso das profecias.

A estrutura do Apocalipse nos ajuda a entender o silêncio no céu em Apoc 8 referindo-se a 2a vinda de Jesus. Os 7 selos e 7 trombetas são descritos numa sequência de 6, interlúdio futuro, último selo/trombeta. O Adventismo interpreta as sequencias de 7 (igrejas, selos, trombetas, pragas) como historicas. com exceção das pragas os 7 vão do tempo do profeta João até o tempo do fim.

Os interlúdios são anúncios de juízo e salvação que preparam para a nova sequência de 7, sempre com visões do céu no futuro. No caso dos selos o interlúdio é a visão do 144,000 no céu entre o juízo do 6o selo e a volta de Jesus. Nas 7 trombetas o interlúdio entre a 6a e a 7a é a visão do tabernáculo no céu e do movimento Adventista representado pelo livrinho.

Assim não é estranho ter um intervalo entre o sexto e sétimo selo que representam eventos ao redor da segunda vinda de Jesus. O silêncio do céu ocorre imediatamente antes da volta de Jesus (Apoc 6:14-16). Isso pode ser porque os anjos do céu acompanham a Cristo (Mat 25:31). Esse silêncio também pode ser explicado pela solenidade do juízo na segunda vinda.

Em Primeiros Escritos p.15 Ellen G. White escreve: "“Who shall be able to stand? Is my robe spotless?” Then the angels ceased to sing, and there was some time of awful silence, when Jesus spoke: “Those who have clean hands and pure hearts shall be able to stand; My grace is sufficient for you.”"

Note que ela cita Apoc.6 (sexto selo) e o silêncio no céu juntos. Na página seguinte ela diz que o tempo de viagem da Terra para o céu ("mar de vidro" em Apoc 15:2) será de 7 dias. "We all entered the cloud together, and were seven days ascending to the sea of glass, when Jesus brought the crowns, and with His own right hand placed them on our heads."

A festa dos tabernáculos durava 7 dias e o oitavo dia era mais uma celebração de salvação (Lev 23:33-44). As festas de Lev 23 são interpretadas como proféticas ou comemorativas de eventos no plano da salvação. Páscoa - Morte de Jesus; Pães Asmos - Santa Ceia ou morte de Jesus; Primícias - Ressurreição; Pentecostes - Chuva temporã (Atos 2) e Serôdia no tempo do fim (Joel 2:28-32) - Espírito Santo para colheita (Apoc 14:14-20); Trombetas (anúncio do juízo - Apoc 8-11 e 14:6-12); Expiação (dia de juízo - Dan 8, Apoc 11:19, 14:7) e Tabernáculos (volta de Jesus - Apoc 15).

Perceba que as três festas da primavera (Páscoa, Asmos e Primícias) são referentes a 1a vinda de Jesus. As três do outono (Trombetas, Expiação e Tabernáculos) são período de colheita da 2a vinda de Jesus. Pentecostes no meio aplica-se tanto a primeira vinda como a segunda.

Então faz sentido que o silêncio no céu por cerca de 7 dias (meia hora) refira-se a festa dos Tabernáculos onde os santos habitarão temporariamente com Jesus na nuvem viajando para o céu. (Primeiros Escritos, 16).

sábado é celebração do livramento!

Os mandamentos de Deus ao povo de Israel têm sido mal interpretados por muitos Cristãos por muito tempo. Marcião não via nele algo positivo, nem Lutero, que ao ler Tiago considerou um documento não condizente com os que eles entendiam da graça ou salvação divina. Mas será que eles leram Exôdo 20 em sua beleza literária?

Tiago estava certo, as palavras do Senhor em Êxodo 20 são de livramento. Creio que o irmão de Jesus entendeu bem o texto da Lei da Liberdade, como ele a chama. Sugiro que a razão que Lutero, Marcião e outros Cristãos não compreenderam os mandamentos divinos é que eles não entenderam o coração dessa lei, o sábado. O tema recorrente na lei é o trabalho e o descanso. Reflita comigo como a filosofia ou ética de trabalho divino soa como uma promessa aos Israelitas escravos moldando as 10 palavras divinas.

O texto começa, "e falou Deus todas essas palavras a eles dizendo: Eu sou o SENHOR teu Deus que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão (עבד)..." Para ex-escravos que haviam sofrido nas mãos de um líder tirano, não  precisar mais se submeter aos serviços/trabalhos/obras do sistema Egípcio era boas-novas (evangelho). Com esse contexto de escravidão em mente reflita comigo como cada mandamento se torna uma bela promessa de Deus aos seus filhos.

(1) "Não terá outros deuses diante de Mim"
Os deuses representado pelo faraó estavam acabando com as vidas dos Israelitas, não tê-los mais era uma liberdade. O texto em Hebraico pode muito bem ser traduzido dessa forma, "Não haverá outros deuses além de mim." Isso é mais que um mandamento é uma afirmação que a liberdade deles estava garantida. Não mais voltariam ao Egito e faraó para servir/trabalhar para seus deuses.

(2) "Não farás para ti imagens...e não as servirás (עבד)"
Perceba que a mesma palavra em Hebraico (עבד- trabalho, obra, serviço) descreve a situação de escravidão dos Israelitas no Egito. É possível que parte das obras que os Israelitas estavam fazendo obrigados pelo faraó involvia o culto dos deuses Egípcios, para os ex-escravos Israelitas não fazê-los mais era um alívio. Principalmente porque o Deus que "faz misericórdia", os "visitou" quando no Egito.

(3) "Não carregarás  em vão..."
A maioria das traduzões usam o verbo (נשא) com o sentido de tomar. Mas o que é tomar o nome? Esse verbo tem a conotação de erguer, carregar, como em Êxo 14:10 - "Os Israelitas levantaram seus olhos". Enquanto no Egito, de acordo com o cap.1, eles estavam carregando tijolo e palha em vão, sem benefícios para seus familiares, o Deus que eles agora servem não ordena algo que não lhes traga benefício. Pelo contrário, os que possuem um estilo de vida vão ou mentiroso (e.g.Êxo 23:1 - שוא) são considerados impuros pelo Deus de Israel.

(4) "Lembra-te do dia de Sábado para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todas as SUAS obras (עבד)..."
A ordem divina aqui é um manifesto à liberdade. É a mais clara expressão da ética do Deus de Israel. Não mais os Israelitas deveriam fazer obras em vão, para outros. Dos 7 dias da semana Deus deu 6 deles para que pudessem realizar os próprios sonhos. Perceba como a linguagem do mandamentoo deixa isso claro, "farás todas as suas obras". O trabalho era DELES. Não mais carregar tijolos no sol, o dia inteiro para construir palácios de iniquidade para os inimigos de Deus. E o que é mais bonito nesse manifesto é o que segue.

"E o sétimo dia é o Sábado do SENHOR teu Deus".
Que Deus é esse? O que tinha recentemente os livrado "da casa da servidão." (v.1) O dia desse Deus deve ser algo muito bom. O próprio nome já indica isso. Possivelmente a palavra sábado significa descanso. Não é à toa que todo ano sabático (sétimo) a natureza descansava e os seres humanos também (Lev. 25:4). E a cada 7 ciclo de 7 anos todo tipo de dívida era perdoada, era o Sábado dos Sábados (perdão de dívidas financeiras, os escravos eram libertos, a terra voltava ao seu dono - Lev 25). Para os Israelitas, como ex-escravos, essa ordem divina deve ter soado ainda mais impressionante.
"Nele (no sábado) não farás nenhum trabalho ( לֹא־תַעֲשֶׂ֣֙ה כָל־מְלָאכָ֡֜ה)"
Se nos 6 dias da semana eles estavam livres para fazer as obras dos seus sonhos, no dia do seu DEUS (mestre) eles deveriam descansar. Que notícia boa. É como se alguém oferecesse um emprego onde 86% do seu serviço o empregador pode fazer coisas que precisa para sobreviver e para seu prazer (para próprio benefício) e nos 14% de obrigação com o patrão o empregador deveria descansar. Bom demais?! Para que os Israelitas não interpretassem mal esse conceito, Deus deixa bem claro que em Seu reino isso aplicava a todos os Seus servos.

"nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo (עבד), nem tua serva, nem nenhum animal e forasteiro que habita com vocês"
Ninguém, absolutamente, nenhum ser vivo criado por Deus deveria ser forçado a trabalho para o benefício de outro. Essa é a filosofia do Egito que o Deus de Israel é contra, escravidão.Por que?

"Pois em 6 dias o SENHOR fez...tudo...e descansou."
Esse é o Deus que visitou os Israelitas na "casa da servidão/escravidão" do Egito. É o "Deus que faz misericórdia". A referência a criação em Gên 1 mostra que o trabalho de Deus é criativos, prazeroso, frutífero, que beneficiam não só ao que faz mas todos ao seu redor. Nos 6 dias da criação Deus fez tudo que a humanidade precisava e descansou como exemplo de sua ética de trabalho. Os Israelitas deveriam fazer o mesmo, trabalhar 6 dias providenciando o bem dos outros e no sétimo dia deveriam descansar. Serviço que não beneficia a criação à luz dessa ética de trabalho é "vão". E carregar (fazer) coisas em vão é proibido no reino de Deus (mandamento 3), por isso os próximos 6 esclarecimentos no decálogo. Seria isso semelhante aos 6 dias de trabalho semanal dado ao homem?

"Honre os seus criadores (progenitores), Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não engane nem deseje do seu companheiro o que não é seu,nem a casa, a esposa, a serva, servo, o animal..." Perceba a semelhança do último mandamento com o quarto.

Comunicação divina: As palavras de Deus em Êxodo 20 não são meras ordens sem propósito. Especificamente a regulamentação do descando no sétimo dia ensina uma ética de trabalho e vida onde a liberdade e o bem do próximo são prioritários.  As leis divinas não permitem exploração, seja no trabalho (baixos salários, falta de segurança), em casa (abuso conjugal e com os filhos), na igreja (abuso clerical, pedofilia) ou em qualquer esfera da vida. Para os que vive(ra)m num regime de opressão, tais palavras são mais que ordens, são promessas de um nova vida.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Interpretações dos 6 selos do Apocalipse - tendências Adventistas

Continuando a reflexão sobre as possibilidades interpretativas dos selos de Apoc 6  sugeridas por intépretes historicistas Adventistas resumo os períodos históricos na tabela abaixo.

1o Selo – Cavalo Branco
Período Apostólico
(Branco = pureza do Evangelho)
Anderson, LaRondelle, Paulien, Ranko
2 o Selo – Cavalo Vermelho
100-325 AD  //
Período geral de perseguição
(Vermelho – sangue dos santos)
Anderson  //
LaRondelle, Paulien, Ranko
3 o Selo – Cavalo Preto
Início da Idade Média   //
Período geral de rejeição do Evangelho
(Preto – ausência de luz/branco – Evangelho)
Anderson, LaRondelle //
Paulien, Ranko
4 o Selo – Cavalo Pálido (esverdeado)
Papado – Alta Idade Média   //
Período geral de forte rejeição do Evangelho
(Pálido = morte como resultado da rejeição da vida oferecida no Evangelho)
Anderson, LaRondelle //
Paulien, Ranko
5 o Selo – Clamor dos mártires
Reforma – Fim  //
Grande Tribulação (Mat 24)   //
Tempo de Juízo (Dan 8 – “até quando”)
Anderson, Paulien  //
Ranko   //
LaRondelle
6 o Selo – Dia do Senhor
Sinais cósmicos
XVIII-Fim
Eventos cósmicos com datas específicas
Eventos cósmicos sem datas específicas

Anderson  //
LaRondelle, Paulien Ranko

Conforme a tabela detecto algumas tendências nas interpretações Adventistas dos 6 selos do Apocalipse. Primeiro, como mencionado no texto anterior, há uma certa harmonia em dividir os selos em dois grupos (1-4; 5-7). Os primeiro grupo que contém os cavaleiros são interpretados historicamente do período apostólico até aproximadamente a Reforma ou século XVIII.

A outra tendência que percebo é referente ao segundo grupo de selos (5-7). Todos concordam que o sétimo selo se refere a volta de Jesus e o sexto selo termina no limiar desse evento.Os detalhes do quinto e sexto ainda estão em questionamento. No quinto selo as sugestões divergem quanto a aplicação histórica da espera dos mártires. Nesse selo há um questionamento à Deus, da parte dos que sofreram perseguição (selos 2-4). Os mártires exclamam, "até quando" o juízo? A eles é dito que esperem um "pouco mais" (Apoc 6:10,11).

LaRondelle faz uma conexão linguística do "até quando" com Daniel 8:13-14 e sugere que o quinto selo termina em 1844, conforme a profecia das 2300 tardes e manhãs. Ambos os textos falam de juízo e precedem imediatamente a vinda do Messias. Anderson, Paulien e Ranko dependem do quarto e sexto selo para determinar o período do quinto selo, da Idade Média/Reforma até próximo a volta de Jesus (6o. selo). Até aqui as divergências são pequenas e facilmente ajustáveis cronologicamente e biblicamente.

É no sexto selo que as interpretações Adventistas vão divergir mais afetando a interpretação do restante do Apocalipse, principalmente as trombetas. Apesar de todos concordarem com seu término (o fim ou volta do Messias) os sinais de anúncio desse grande dia de juízo são interpretados diferentemente. O terremoto é o ponto mais controverso e sobre ele refletimos no próximo texto.