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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Començando lição de Gálatas

Owo! Que propício essa lição sobre Gálatas. Falar sobre lei, liberdade, culto, ritos, missão e tensão. Vamos continuar donde deixamos no último comentário sobre adoração na igreja primitiva. No último texto investiguei a mudança teológica que a vinda de Jesus trouxe aos judeus-cristãos. E com essa mudança o que foi modificado no culto, salvação e missão.
Centrais à essas mudanças estão Paulo, Estêvão, Pedro, Cornélio e o concílio de Jerusalém.  Escrevi anteriormente que:
“na prática o que Tiago deixou claro é que os costumes judeus da época não deveriam ser padrão para todos. Mas que deveriam ser mantidas os princípios de culto gerais do Antigo Testamento que envolve tanto Israelitas como estrangeiros, como Levíticos 17-19. ...Parece que os cristãos da época de Paulo demoraram para entender tais ideias. No livro de Gálatas e Romanos Paulo continua a debater sobre tais assuntos. E em Atos 18, em sua segunda viagem missionária, após o relato Lucano do concílio de Jerusalém,  encontramos Paulo debatendo novamente esse assunto.”
O que deveria continuar ou não nos rituais do santuário em relação a vinda de Jesus Cristo? Qual a importância e relevância da lei ou leis do Pentateuco após o Messias? Sobre essas importantes questões aprenderemos ainda mais nesse trimestre. Mas, como sempre, nesse tipo de estudo focando em um livro a lição da escola sabatina começa com uma introdução histórica sobre o autor.
O papel de Jesus nisso tudo
Já vimos que a vinda de Jesus mudou os paradigmas de muitos judeus. É importante entendermos essas mudanças à luz do livro de Atos, pois é sobre essa mudança que Paulo escreve o livro de Gálatas. Mas isso veremos nas próximas semanas.
O livro de Atos começa onde o evangelho de Lucas termina. O último capítulo de Lucas é sobre a ressurreição de Jesus (v.1-12), o diálogo de Jesus no caminho para Emaús (v.13-35), a aparição aos apóstolos (v.36-49), e sua ascenção (v.50-53). Que a ressureição ocorrida no domingo é algo espetacular, fisicamente falando, e dispensa comentários. Mas relacionado a um Messias morto como um criminoso é ainda mais, teologicamente falando.
Tanto que como bons judeus, os dois discípulos que  voltaram tristes das festividades pascoais aos seus lares questionaram a identidade de Jesus. E de acordo com Cleopas, Jerusalém inteira fazia o mesmo questionamento (v.18). “Ora nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam.”
“Ele quem havia de redimir a Israel”. O que eles estavam dizendo? Para cristãos quase 2 milênios depois, tal pergunta parece ser tão simplória. Por causa de nossa rica tradição evangélica (dos Evangelhos-Novo Testamento), a salvação pela morte de Jesus é segunda natureza. Mas para judeus do século 1 não era bem assim. O que envolvia a redenção e qual a relação com Paulo, Pedro e o livro de Gálatas?
A tradição judaica  contava a seguinte história: há milhares de anos atrás o Deus Todo-Poderoso resolve criar o universo, e dentre eles o planeta com animais e seres humanos. Todos teriam vida sem fim se confiassem em Deus, obedecendo-o. A ordem era clara, não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ouvindo a serpente Eva e seu esposo viraram as costas à ordem divina e criaram suas próprias realidades.
No final das contas, eles descobrem não somente que estavão nus, mas também que Deus estava certo e a serpente errada. Descobrem também que Deus dá uma segunda chance por meio do sacrifício de uma animal cuja pele os cobre. Mas não somente isso, eles aprendem que esse sacrifício seria um descedente da mulher, e que guerrearia contra os descedentes da serpente e finalmente destruiria o pecado (Gn.3:15).
Apesar de Eva esperar ser Caim o tal descedente, sua esperança foi parcialmente frustrada. Mas não fora somente Eva que se decepcionou com a esperança dada pelo Criador. Com poucos detalhes sobre tal salvador, Deus apenas havia informado Eva que seria um descendente, não o primeiro, nem quando, ou onde. Nos filhos de Noé Deus afunila sua predição, limitando tal promessa aos filhos de Sem (Gn.10:27). Com Abraão e Davi mais detalhes são adicionados.
Com Abraão a salvação da humanidade ganha contornos específicos. Em Gn.12 a salvação do mundo se torna bem familiar, “em ti serão benditas todas as famílias da terra.” Pelos filhos de Abraão viria o descendente esperado. E junto com a salvação uma terra e uma nação. Para aqueles dois judeus de Emaús ser judeu era fazer parte do único povo divino. Mas sobre o fim do pecado... anos vão e vem, Jacó, José, Moisés e nada de fim do pecado, pelo contrário, coisas parecem só piorar.
Com Moisés e a saída do Egito, os descedentes de Abraão ganham status de povo escolhido de Deus, uma nação de sacerdotes, povo santo. Mas a promessa é condicional, como foi no Éden . “Se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então...”  Depender de Deus obedencendo aos Seus mandamentos, além da escolha soberana divina os tornava meios por quais todas as famílias da terra seriam abençoadas.
Centenas de anos passam, coisas ruins acontecem assim como coisas boas, mas nada do esperado descedente aparecer. Israel decide ter um rei. Por meio do segundo rei, Davi, Deus revela a Seu povo novamente Sua promessa, com mais detalhes sobre o tal descendente. Ele será o filho do Rei Davi, e estabelecerá o reino de Israel para sempre (II Sm.7:8-17).
Certamente a princípio Salomão criou grandes espectativas na mente dos Israelitas. Como Eva e os dois discípulos a caminho de Emaús tal esperança se tornou rapidamente em grande decepção. Caim, Salomão e Jesus morreram e a vida contiuava a mesma, quer dizer, pior porque Deus ainda não cumprira Sua promessa.
Promessa essa que fora detalhada ainda mais com os profetas. Não afirma Isaías que o renovo de Davi destruiria os inimigos de Israel?! E que Ele purificaria Jerusalém de toda imundícia e resplandeceria em glória, reinando para todo o sempre!? Trazendo de todas as nações da terra o restante de Seu povo para reinar juntamente com eles (Is.4,11, 65 e 66)?!

Como conciliar tais profecias sobre um reino eterno com um filho de Davi  que morreria mas que reinaria para sempre e destruiria todos os inimigos políticos?


Com toda essa tradição em mente, e com grandes esperanças instigadas pela pregação de João Batista e os ensinos e milagres do carpinteiro de Nazaré, milhares de judeus esperavam ser Jesus, o Cristo. Mas esse Jesus, a quem esperavam ser o que redimiria a Israel, morrera já fazia 3 dias, e os opressores romanos continuam como antes. Mais uma decepção! Porém note a resposta de Jesus.

“Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Não convinha que Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lc.24:25) Qual foi a parte que Jesus afirmou ser ignorada pelos discípulos? A morte e a glorificação do Messias.  Is.53, junto com a parte da ferida do calcanhar do descedente, à luz do sacrifício no santuário não entendida.
Essa falta de entendimento não era de todo estranha, penso. Como conciliar tais profecias sobre um reino eterno, com um filho de Davi que reinaria para sempre e destruiria todos os inimigos políticos com alguém que morreria? Essa conciliação entre santuário, sacrifício e salvação não era bem explicada na mentalidade judaica aparentemente.
E mesmo depois da explicação de Jesus aos dois naquele domingo, e em seguida ao restante dos discípulos em Jerusalém, tal assunto não fora resolvido completamente. Isso demoraria anos, posso até dizer milênios, se considerarmos que nem todas as implicações de tal mensagem fora explicada no cristianismo.
Quando Paulo entra nessa história
A tentativa de resolução desse problema é percebida claramente (mas não somente) na história de Cornélio e Pedro, e em seguida Paulo com sua viagem missionária e o Concílio de Jerusalém. Ambas histórias se relacionam com a história de Estévão de alguma maneira.
Já vimos que o judeu de origem grega (heleno ou da diáspora), Estêvão, movido pelo Espírito Santo discutia as Escrituras com judeus em Jerusalém. De acordo com Lucas alguns entenderam Estêvão como os sacerdotes entenderam Jesus, falando contra o lugar santo e a sua lei. Contra o santuário e seus ritos. Como não temos o que Estêvão falou, devemos buscar o que Jesus afirmou sobre o assunto.

Essa conciliação entre santuário, sacrifício e salvação não era bem explicada na mentalidade judaica aparentemente.


Em João 2, ao remover os comerciantes do pátio do templo, Jesus afirmou que destruiria o santuário em três dias e o reconstruiria. Sobre essa base o sumo-sacerdote acusa Jesus e o mata. Mas João explica que Jesus se referia ao Seu corpo. Se Jesus disse ser Seu corpo o santuário, e João Batista O chamou de Cordeiro de Deus, podemos deduzir algumas coisas.

Primeiro, a morte de Jesus destruiria de alguma forma o templo. Segundo Ele era o cumprimento da promessa do sacrifício de Deus em Gn.3 e que dava significado ao santuário. Assim, à luz de Is.53, o Cristo daria fim/finalidade aos rituais do santuário, providenciando salvação a todos por meio de Sua morte vicária. Não eram esses os elementos que Jesus afirmava faltar nos discípulos de Emaús? Parece que com Estêvão os cristãos estavam aprendendo tal relação.
Relação essa que inclui Paulo na história desse entendimento. Pois ele é visto na cena do debate e crime de Estêvão (At.8:1). E após a sua conversão é relacionado também com o mesmo grupo de Estêvão, os judeus helenistas (9:29). E é Paulo ,que por meio de sua perseguição aos cristãos em Jerusalém, espalha-os para pregar o evangelho (8:1-8). Note que Felipe é o primeiro relato de pregação fora do ciclo de Jerusalém. E depois temos Paulo em Damasco e Pedro em Jope.
Nesse ponto a relação entre cristãos-judeus e gentios estavam se estreitando. Não que isso não ocorria. Era normal um judeu conviver com outras pessoas, falar de sua religião a elas e até aceitá-las como judeus conversos. Mas tal conversão incluia, no caso masculino, circuncisão e participação nos ritos do templo. Pois essa era a marca dos escolhidos filhos de Abraão. Aos que não queriam a circuncisão, prática abominada pelos romanos, mas que adoravam o Deus de Israel e participavam do culto na sinagoga, os judeus consideravam tementes a Deus.
Mas na visão do lençol e no encontro com um temente a Deus essa visão seria desafiada. Em At.10 Deus deixa claro a Pedro que gentios eram também povo de Deus. E com a presença do Espírito Santo em Cornélio e sua família, Pedro reconhece que mesmo sem circuncisão os que creem em Jesus como Cristo (o descendente da promessa) são aceitos e salvos por Deus.
Ao ouvir essa e outras histórias de gentios incircuncisos recebendo o Espírito, judeus-cristãos de Jerusalém (não helenos) intimam Pedro a se explicar (11:1). Ao contar sua experiência, Pedro iguala a experiência de conversão de tais gentios com a dos apóstolos em Jerusalém com base no Espírito, e não no rito de cortar parte da pele do pênis.
“Quando comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio...Pois se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?” (v.15,17)
O resultado é positivamente aceito pela igreja em Jerusalém, mas o livro de Atos e de Gálatas revelam que a aceitação não foi unânime. Esses da “circuncisão”, alguns indificados por Lucas como fazendo parte da “seita dos fariseus” (15:5), outrora grupo de Saulo, levantam a questão novamente, agora com uma aceitação ainda maior de gentios com a pregação de Paulo.
Note que a questão é a mesma, ainda não compreendida por toda a igreja. A relação entre salvação e, na linguagem de Lucas, “o costume de Moisés” (v.1).  Qual o papel da lei de Moisés e dos rituais judaicos ordenados por Deus como símbolo do povo santo com a vinda de Jesus, o Cristo? O fato é que o concílio de Jerusalém decide que os gentios são aceitos pela igreja sem o rito da circuncisão, mas
que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitasç destas coisas fareis bem se vos guardardes.”  (v.29)
Mas novamente, como no caso de Pedro e Cornélio, a aceitação estava longe de ser unânime e resolver o problema de uma vez. Isso porque, o que me parece, teologicamente a igreja cristã da época  ainda não tinha refletido suficientemente sobre as implicações da vinda, morte e ascenção de Jesus como Messias.
Comunicação divina dessa semana: É isso que Paulo faz em Gálatas, livro de nossa reflexão esse trimestre. O que aprendi com essa semana é que nem sempre é fácil desvencilhar de nossas tradições, principalmente se elas estão baseadas de alguma forma na Bíblia. Mudança na igreja requer tempo, missão e abertura para discussão. Creio que a Igreja Adventista e o Cristianismo em geral fariam bem se envolvessem mais em missão e discutissem abertamente as implicações da Pessoa de Cristo na estrutura da igreja e na salvação de toda a humanidade.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Lição 11 – Adoração no início da Igreja Cristã

Na semana passada descobrimos que a encarnação de Jesus modificou os contornos do culto Vétero Testamentário. Isso quer dizer que os locais, rituais, e propósito do culto do templo Israelita ganharam dimensões maiores, superiores. Como já esperado pelos profetas, o Messias completa e realiza o objetivo do culto no santuário. Mas o que isso significava na prática da igreja cristã no tempo de Paulo e hoje?

Teologia e culto
O aparecimento do Messias cumpriu o proclamado e esperado por séculos na religião Israelita. A vinda de Jesus modificou muitas coisas. E certamente uma delas foi o culto. Ao começar a pregar que o carpinteiro de Nazaré era a esperança de Gn.3:15 realizada, a impressão que tenho em ler Atos é que os discípulos não entederam completamente o impacto do evento Cristo. Mas com o tempo, vivendo pelo Espírito, Deus os guiou no desenvolvimento da verdade como prometera antes de morrer (Jo.16:7-13).

O primeiro indício que encontro em Atos sobre mudança de paradigma no culto dos apóstolos é o conflito entre Pedro e os líderes do templo. Ao ouvirem os discípulos do Mestre , a quem eles haviam matado, no templo pregando sobre Jesus sendo o Messias, as “autoridades” religiosas os condena (At.4:1-22). Sendo assim maltratados, os apóstolos reagem de maneira antagônica aos líderes do templo e, consequentemente, aos seus rituais e ensinos de culto. Isso é percebido pelo conteúdo da resposta de Pedro ao Sinédrio.

Mas a reação não involve uma mudança radical e completa. Perceba que o grupo de  Jesus continua indo ao templo para adorar mesmo após a instituição de ‘pequenos grupos’ caseiros (At.4:32-35; 5:12). A ida frequente ao templo é um possível indicador que eles ainda relacionavam adoração com o templo de Jerusalém. Décadas depois, mesmo após o concílio de Jerusalém, Paulo ainda vai ao templo participar de seus ritos (At.21:26).

Isso não é de todo estranho, visto que no Antigo oriente o lugar de adoração na maioria das religiões era um edifício suntuoso chamado santuário. E mesmo porque até onde sabemos Jesus não havia dito para eles pararem de ir ao templo, mas que pregassem primeiro em Jerusalém. E que melhor local que o santuário?!
A questão é que a teologia de tais judeus não era mais a mesma que a 4 anos atrás (antes da vinda de Jesus). De acordo com a pregação de Pedro, eles entenderam que Jesus era o Messias. Ele era o filho de Davi, e que reina no trono de Deus no céu. Mas o que isso tem a ver com o culto? Estevão aparece como o primeiro em Atos a elaborar algumas implicações do evento Cristo no culto.

Em Atos 6 nos é informado que na região helênica de Jerusalém (os judeus da diáspora – não Palestinos – v.8,9) surgiu um acalorado debate envolvendo Moisés e Deus. E o personagem principal de tal agitação era Estêvão. O v.13 afirma que os judeus que não concordavam com Estêvão acreditavam que ele “não cessa de falar contra o santo e contra a lei.”

Isso quer dizer, “porque temos ouvido dizer que esse Jesus, o Nazareno, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos deu.” (v.14) Tais argumentos e acusações repetem o que fizeram com Cristo. Em João 2, ao purificar o templo, Cristo afirmou que destruiria “este santuário”. No Sinédrio, perante  os sacerdotes, Jesus é acusado de rejeitar os rituais do santuário e afirmar ser Deus (contra o Santo e a Lei – ver Marcos 14:53-65 e paralelos em Mt.26:57-68 e Lc.22:63-71).
Que a causa da morte de Estêvão envolvia o culto, a lei e o templo como interpretado por Cristo basta ver a ênfase de seu discurso sobre o templo. Estêvão contrasta a idolatria de Israel com a adoração verdadeira do Templo que apontava para Jesus. Visto que os atuais líderes rejeitaram Jesus, eles eram também idólatras como os antepassados.

Mas a mais importante informação é o fato de Jesus estar no céu com Deus (v.56 – ver 2:33; 3:19-21). Se Pedro e Estêvão estiverem correto, que Cristo está no céu e oferece perdão/salvação, então qual o valor dos rituais do templo  e do próprio templo? Reconhecendo talvez as drásticas implicações de tal mensagem, os sacerdotes mataram Jesus e Estêvão, e tentaram matar Pedro e os seus seguidores. Tal mensagem tornaria o templo insignificante, assim pensavam.

Note que com a mudança da teologia o formato presente do culto Judeu começa a ser questionado. E o que significa a mensagem de 1844 e a mudança de Jesus do santo para o santíssimo na liturgia cristã? Deveria a liturgia adventista refletir o culto evangélico que não possui tal crença? Tais reflexoes teológicas são considerações importantes que deveriam afetar nossa maneira de cultuar. Mas, continuemos...
Teologia, missão e culto
Logo após o debate dos judeus helenos e do martírio de Estêvão, Lucas relaciona a figura de Paulo, da perseguição da igreja e da pregação do evangelho fora de Jerusalém. Esses elementos são preponderantes no desenvolvimento litúrgico no início da igreja Cristã.

A perseguição em Jerusalém fez com que os seguidores de Jesus saíssem de Sião para proclamar Jesus em Samaria. Vemos Filipe na região da prostituta de Sicar (lembra do discurso de Jesus sobre adoração em espírito e verdade?!), depois sendo levado por um anjo, pregando para um africano no deserto de Gaza, e em seguida em Azoto no norte de Gaza e em Cesareia. O movimento da pregação reflete o mandato de Jesus em At.1:8 – Judeia, Samaria e confins do mundo.
A missão dos seguidores de Jesus se espande com Saulo. Primeiramente com o Saulo perseguidor; e o mais importante, quando Saulo se converte. Pois é com a conversão de Saulo para Paulo que a missão aos confins do mundo (Gentios) ganha proporções de impacto. E o que isso tem a ver com o culto?

Se considerarmos que o templo era o locus judaico da salvação e presença divina, a missão dos cristãos tem muita influência no culto desse tempo/templo. Se Jesus é Deus, que oferece salvação, que está atualmente no céu, e que tem o Seu Espírito habitando em qualquer lugar com os crentes em Seu nome (Mt.18:19,20), então certamente Jesus se torna um templo, como afirmava os Cristãos. E qual o papel dos rituais em Jerusalém?
Ao saírem de Jerusalém e pregarem fora do templo, não só a teologia mas a missão e o culto mudam. Saulo, o assassino de Estêvão, teve que aprender essa lição caindo do cavalo. Pedro aprendeu com um sonho e com Cornélio. Tiago e os líderes cristãos em Jerusalém com um debate e concílio. A razão da missão afetar o culto é simples e ao mesmo tempo complexa.

Quando saímos de nossa zona de conforto e visões de mundo estabelecidas (tradições) os nossos hábitos são questionados. Aos saírem de Jerusalém e entenderem que Jesus era o Salvador do mundo não só dos Judeus como também dos gregos, e que tanto gregos como israelitas adoravam o mesmo Criador, as tradições litúrgicas dos discípulos foram expandidas. Saia de seu costume, de sua igreja local e vá pregar nas favelas, prostíbulos e bares, e veja como sua visão de culto será modificada!
Com a teologia modificada e a missão expandida, a liturgia cristã também reflete tais mudanças. Tal impacto foi reconhecido em Jerusalém. Em Atos 15 Lucas registra o que nomeamos o primeiro concílio eclesiástico cristão. E qual era o assunto principal da agenda? Missão e sua relação com culto e salvação (v.1,5). Pedro é o porta-voz do grupo que advogava mudanças na liturgia, grupo esse que incluia Paulo e Barnabé. Do outro lado estava a “seita dos fariseus que haviam crido” (v.5).

O argumento de Pedro é: como a salvação é pela graça, por meio de Jesus a todos que O aceitarem, o contato agora com o divino não passa mais por meio de sacrifícios ou sacerdotes, mas sim diretamente com Jesus no céu. Isso significa que a presença no templo em Jerusalém não era obrigatória, e que não precisava alguém ser judeu (circuncidado) pra adorar. Lembre-se que para entrar no templo em Jerusalém tal indivíduo deveria ser judeu circuncidado.
A decisão de Tiago, irmão de Jesus, é que o parecer de Pedro foi confirmado pelo Espírito, e por isso deveria ser aceito pela igreja. Os gentios que aceitassem a Jesus deveriam apenas lembrar que adoração verdadeira não pratica idolatria, o que envolve alimentação e relações sexuais impuras. Na decisão do concílio de Jerusalém, culto, alimentação e sexo estão intimamente relacionados.

A prática
Na prática o que Tiago deixou claro é que os costumes judeus da época não deveriam ser padrão para todos. Porém que deveriam ser mantidos os princípios de culto do Antigo Testamento que envolviam tanto Israelitas como estrangeiros (Levíticos 17-19). Eu me pergunto se como Adventistas temos entendido os princípios gerais de culto divino.

Parece que os cristãos da época de Paulo demoraram para entender tais ideias. No livro de Gálatas e Romanos Paulo continua a debater sobre tais assuntos. E em Atos 18, em sua segunda viagem missionária, após o relato Lucano do concílio de Jerusalém,  encontramos Paulo debatendo novamente esse assunto.
Em Corinto, como era de costume, Paulo começa pregando o evangelho entre seus compatriotas judeus. Na sinagoga, como bom fariseu, ele participava do culto e lia as Escrituras sem problema. Mas ao falar que Jesus era o Cristo, isso lhe trouxe problemas. Muitos judeus não aceitaram tal mensagem de um messias  salvador se tornando homem, crucificado, ressurreto, prestes a vir, doador da vida e liberdade a todos os que Nele cressem.

Tal mensagem era tão radical que os judeus da sinagoga de Corinto não só repeliram Paulo como o perseguiram fora dela na cidade. Eles pegaram Paulo e levaram-no perante o tribunal romano, acusando-o de sedição religiosa. “Este persuade os homens a adorar a Deus por modo contrário a lei.” (At.18:13). Ao refletir sobre esse texto me pergunto, que lei referiam os judeus de Corinto?
Se é a lei romana, tal acusação faria até algum sentido. É sabido que alguns imperadores romanos, a partir de César Augustus, foram considerados deuses e a adoração a tais era obrigatória. Desobediência incluia pena de morte. Esse foi o argumento usado pelos líderes judaicos no ano 31 contra Jesus perante Pilatos. Lembra do que eles disseram, “não temos rei senão César!”  (Jo.19:15). Mas certamente tal argumento iria contra religião e lei judaica.

Se a lei de At.18:13 se refere aos costumes Israelitas, isso pode implicar que Paulo estaria pregando como Estêvão, contra o Santo e a Lei (o templo e os rituais mosaicos). A resposta de Gálio me parece indicar que a segunda opção seja o caso. “Se fosse, com efeito, alguma injustiça ou crime da maior gravidade, ó judeus, de razão seria atender-vos; mas, se é questão de palavra, de nomes e da vossa lei, tratai disso vós mesmos; eu não quero ser juíz dessas coisas!” (v.14,15).
Sendo este o caso, de Paulo seguir a teologia de Pedro e Estêvão do santuário celestial e de mediação de Cristo no céu, note que a mensagem cristã gerou desavença na liturgia e teologia judaica do tempo. A concepção que Deus não se limitava ao templo em Jerusalém, que o Criador havia vivido em carne na pessoa de Jesus, e agora intercede no céu perdoando pecados de qualquer um que crer são radicais.

E nós, Adventistas?
Em 1844, após o desapontamento milerita de 22 de outubro, um grupo de estudantes da Bíblia revisa suas crenças proféticas. Hiram Edson, Samuel Snow, José Bates, Tiago e Ellen G. White, dentre outros, discutem o que aconteceu naquele dia e o que Dn.8:14 tem a ver com salvação, culto e lei. A história se repete.

Agora não fora a profecia de Dn.9 que mudara a teologia do povo de Deus, como nos dias de Paulo. Porém a profecia relacionada de Dn.8:14 trouxe modificações ao remanescente na modernidade. Enquanto o mundo cristão não sabe que Jesus está no santuário celestial intercedendo por nós no santo dos santos, como no ritual da expiação (e ainda rejeitam tal noção), aquele grupo com tal conceito modificou por completo o sistema de culto cristão.
Ao afirmar que há um santuário celestial real, onde Deus habita e Jesus o Cristo intercede por todos os que Nele creem, os adventistas quebram com o paradigma da adoração atual. O culto verdadeiro tem que considerar tais afirmações revolucionárias. A existência de um juízo investigativo, de uma lei eterna, de um dia santo (o sétimo dia do sábado), da volta de Jesus literal em breve, e do cumprimento profético em 1844, modifica completamente a noção de culto cristão hoje.

Mas o que modifica? Tais relações ainda precisam ser elaboradas e seriamente refletidas. Creio que com o modelo do desenvolvimento em Atos temos muito o que aprender. A mudança na teologia sobre Cristo (Cristologia, doutrina de Deus), seguida da missão e soteriologia (mensagem de salvação) repercutiu fortemente na liturgia.
Movimentos como Nova Semente (São Paulo) e Fusion (na Universidade Andrews), assim como envolvimento com budistas e islâmicos na Ásia, têm gerado tensões na compreensão de culto no adventismo. Essa lição da escola sabatina, o chamado para reforma e reavivamento da Conferência Geral  tem tentado diminuir tais tensões. Porém, tenho que concordar com o professor Fernando Canale que a discusão está longe de ser resolvida. A razão é que os membros não se envolvem mais com a missão, e não estudam mais a Palavra de Deus em oração.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Adorando em espírito e em verdade


A lição muda sua atenção do Antigo Testamento para o Novo. O que acontece com o culto nessa transição? Cristo apararece, e com Ele, diria o autor de Hebreus, tudo muda. O que outrora era prometido agora é realizado. O que antes era parcial é completado. Isso não significa substituição, mas cumprimento. Continuando de onde paramos na semana passada, Daniel 9, agora entramos no cumprimento do que os profetas esperaram por séculos, a presença da glória do Senhor.

A presença de Jesus

Após voltarem do cativeiro, os judeus deveriam ter aprendido a lição que adoração ao Deus verdadeiro envolve mais que ritos em Jerusalém. Visto que Ele é Senhor dos céus e da terra, Ele não se confina  às construções humanas nem às suas vontades. O Criador do universo habita onde deseja e abençoa a quantos queira.

É fato que Deus escolheu Israel, Jerusalém e o santuário em Sião. Deus de fato habitou no meio dos louvores de Israel, como afirma o Salmo. Mas sua “limitação” não era controlada por seres humanos, quero dizer, não era controlada por vontade humana a fixação do divino em um lugar físico único. Essa era a religião dos pagãos. Marduque habitava Babilônia; Dagon, a Fenícia; e Baal, Canaã.

Mas o Deus de Israel ia onde seus filhos estavam. Ele desceu ao Egito para livrá-los da escravidão. Andou numa nuvem com eles no deserto da Arábia. Entrou em Canaã com a arca. Encheu com Sua glória o templo Salomônico. E quando os Israelitas viraram as costas, adorando ídolos, Deus abandonou o lugar outrora santo. Como prometido pelo próprio Deus em Deuteronômio, a idolatria faria com que Israel fosse espalhado entre os pagãos.

E foi isso o que ocorreu. O falso culto no santuário do Deus verdadeiro se tornou habitação de demônios e a glória do Senhor deixou o templo, mas não Israel. De acordo com Ezequiel, como vimos semana passada, a glória ferida do SENHOR segue seus filhos até Babilônia. Lá, Deus se fez presente em cova de leões, em camas de reis (sonho), em fornalhas, e em casas de cativos (Ezequiel).
Daniel e Ezequiel prometeram o retorno da glória do Senhor ao templo, trazendo salvação a todo o mundo. Os anos passaram. Ageu deixou claro que essa glória seria bem maior que a do tempo de Salomão. Mas nada ocorreu na dedicação do templo no tempo de Esdras. Certamente a glória do Senhor não viera como o prometido por Isaías, Jeremias, e muito menos Ezequiel e Daniel.
O que isso tem haver com o culto? Para os Israelitas e a religião do Antigo Testamento, sem a presença de Deus não há adoração significativa. Os sacrifícios continuaram, os rituais litúrgicos oferecidos no altar proseguiram até o ano 70AD, quando finalmente a estrutura do templo em Jerusalém foi destruída. Mas pouco antes da destruição, o que Gabriel contara a Daniel se cumpriu. A vinda do Messias muda a dinâmica do culto mais uma vez.
Mudanças já ocorreram na adoração verdadeira antes. Vimos que entre o Gênesis e o Êxodo o culto se modificou em vários aspectos, sem ignorar os elementos fundamentais do altar e do sábado. Observamos também que o culto mudou novamente com o cativeiro em Babilônia. E não é surpresa que a vinda do Messias mudaria as coisas novamente. Não só era natural como esperado e anunciado.
Gabriel falara a Daniel que após 69 semanas de anos (483 anos) o Messias seria morto e na metade da última das 70 semanas Ele faria cessar o sacrifício e as ofertas. Ao ver  Jesus na beira do Jordão, João Batista, o último dos profetas do Antigo Testamento, afirmou ter visto o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo.
O que isso significava? Muito provável que Jesus era o que faria “cessar a transgressão, dar fim aos pecados, expiar a iniquidade e trazer justiça eterna.” (Dn.9:24) Era o ideal do culto Israelita prometido pela profecia.  Pois os ritos do santuário e do altar eram símbolos que ensinavam purificação do pecado e restauração do homem à presença santa de Deus. A remoção do pecado, e a reintrodução do homem com o divino ocorreu quando a “Palavra se fez carne e habitou entre nós”. Jesus perdoa pecados e como Deus, habitou face a face com as criaturas.
Em Jesus, a glória entra no templo como prometida por Ageu (Luc.2:27,30,31). Mas novamente a glória do Senhor encontra apostasia e impureza no santuário (Jo.2:13-16). E assim como no passado, a glória do Senhor não pode habitar num templo impuro, desobediente. Por fim, a glória abandona o templo (Mt.23) e este é novamente destruído. A história se repete. Deus continua sendo o mesmo, e infelizmente os pecadores também.

O que mudou?
Se Deus é o mesmo, isso significa que os princípios de culto não mudam, correto? Cristo vem para cumprir a lei (Mt.5:17). Ao conversar com a Samaritana Jesus deixa claro que o verdadeiro culto era realizado em Jerusalém. A religião de Israel, e os rituais litúrgicos feitos no templo em Sião eram instituídos por Deus. “Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus” (Jo.4:22).
Note que Jesus relaciona culto com salvação. Desde o Éden, adoração é sinônimo de vida ou morte. Os que seguem o verdadeiro Deus recebem vida. As bençãos e maldições na aliança em Deuteronômio, repetida pelos profetas, demonstram essa mesma dinâmica. Quando Israel se apegava ao Criador eles eram abençoados. Quando seguiam ídolos eram amaldiçoados.
No Êxodo o culto é atrelado à libertação da escravidão. Em Daniel 9 também observamos essa característica. O questionamento de Daniel quanto a restauração do templo, o centro do culto, foi respondido com a vinda do Messias e a salvação de Israel. Como o Messias é judeu, da linhagem de Abraão,  especificamente de Davi, a salvação pertencia aos judeus, e com isso, o culto verdadeiro. A razão é óbvia, o Messias é o próprio Deus.
Ou seja, isso significa que a adoração do altar feita por Abraão é oferecida ao mesmo Ser que recebe ofertas no Santuário do tempo de Salomão, de Daniel e agora da samaritana. Isso não significa, no entanto, que o Criador era manipulado por Jerusalém. Observe que na conversa entre Jesus e a samaritana ela considera religião como se se limitando às culturas.
És tu porventura, maior do que Jacó, o nosso pai...nossos pais adoravam neste monte; vós entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar.” (Jo.4:12,20) Nessa resposta entendo que o conceito de religião e culto estava atrelado apenas à geografia, consequentemente às limitações humanas. O Deus verdadeiro era relativo, meu e não seu. Judeus afirmavam adorar a verdade enquanto que os samaritanos também. Apegados às tradições eles separavam a humanidade e o único Deus.
Mas Jesus não define religião como limitada às culturas, como a samaritana, porque o Deus Criador é universal. Perceba que essa é a mesma característica da religião verdadeira no Gênesis.  Ao mesmo tempo Cristo deixa claro que é em Jerusalém e não em Samaria que o Deus verdadeiro é adorado corretamente. É no templo da linhagem de Moisés, com os rituais instituídos no Sinai, que encontra-se o verdadeiro culto. O que essa tensão nos ensina?
Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (v.23). Em espírito. Por meio da lição dos profetas vimos que não eram as formas apenas que importavam para Deus. Os rituais de pufiricação do templo ensinavam que o Criador queria purificar o ser humano de seu pecado. Sacrificar sem amar, ou oferecer libações sem ser purificado pelo Espírito era sem valor salvífico (Heb.10:4,11; Is.1:1-17).
Continuando os princípios dos profetas, Jesus deixa claro para a Samaritana que o culto verdadeiro é oferecido com o espírito. Isso quer dizer, amar e obedecer ao Senhor, seguir a verdade (Jo.16:13; Rom.8:1-5). Isso poderia ser feito tanto em Jerusalém como em Samaria ou Babilônia. E com a vinda de Jesus esse princípio se tornaria ainda mais amplo.
No passado onde Deus se fazia presente, ali as pessoas adoravam. Santuário significa lugar santo, onde o Santo está. Após o sonho Jacó adorou em Betel com o altar. No tabernáculo as ofertas eram trazidas onde a fumaça da glória divina permanecia. Mas com Jesus, a glória de Deus encarnada, a presença de Deus andou do Mar da Galiléia ao poço de Sicar. Onde quer que Ele esteja, ali deverá ser oferecida adoração.
Jesus expande o conceito de santuário da estrutura física em Jerusalém para Si quando entra no templo expulsando os vendedores pela primeira vez. “Destruí este santuário e em três dias o reconstruirei.” (Jo.4:19). As pessoas quando ouviram Suas palavras não entenderam. Porém João, após a ascenção do Messias, explica que Jesus “se referia ao santuário do seu corpo” (v.21).
Após a encarnação de Jesus Cristo não poderiam nem judeus nem samaritanos afirmarem que Deus se limitara a uma geografia específica. “Deus é espírito”. Podemos dizer que Jesus muda as regras do jogo? Sim e não. Sim no aspecto de que não mais precisavam do santuário em Jerusalém pois a glória de Deus se fizera carne e andava entre eles. Ao mesmo tempo isso não era nenhuma novidade, pois em Ezequiel 11 vimos que Deus se fez santuário para os judeus em Babilônia. A tensão deve ser mantida.
No entanto, o que muda por completo é que até santuários em Jerusalém haviam sido construídos e ofertas ali oferecidas. Com a vinda do Cordeiro de Deus tal ação e local perdera significância salvífica. Jesus é o Templo e o próprio Sacerdote. Ainda mais com a ascenção o nosso sacrifício e sumo-sacerdote habita no verdadeiro tabernáculo feito não por mãos humanas. Refletindo sobre isso, o autor de Hebreus esclarece que, com a vinda do Messias, as figuras e sombras das coisas celestiais são cumpridas.
Visto que agora Jesus voltou ao único e “verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu e não o homem”, os ritos que apontavam para o verdadeiro também deixam de ter seu valor (Heb.7-9). Isso porque Jesus “se manifestou de uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado” (9:26), o que era “impossível que o sangue de touros e de bodes” fizesse (10:4). Desta maneira, com a vinda de Jesus, o culto verdadeiro ganha dimensões bem mais superiores que o de outrora realizado.
Jesus remove a limitação do primeiro para estabelecer o segundo (10:9). Isso quer dizer que a limitação que judeus e samaritanos antes impunham no culto fora abolida. Com Cristo a barreira é de uma vez por todas removida. Todos os habitantes da terra teriam acesso à presença de Deus, ao trono de graça quando desejassem (4:14-16). Isso porque o nosso Sumo Sacerdote, o próprio Jesus, e a presença de Deus habitam nos lugares celestiais (8:1).
Mas a resposta de Jesus a samaritana não se limita apenas à adoração em espírito. “Importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.” (Jo.4:24). Em verdade. Não basta possuir boas intenções. A Samaritana possuia boas intenções ao conversar com Jesus, mas Ele deixa claro que a religião de Jerusalém é que é a verdadeira.
Em sua resposta Jesus implicava que a mulher deveria abandonar a tradição samaritana e aprender dos judeus os oráculos divinos, pois a “salvação vem dos judeus”. É verdade que no Gênesis as pessoas adoravam em um simples altar, em qualquer lugar, e Deus aceitava tal culto. E vários altares foram construídos. Não quer dizer que todos os altares eram aceitos. O de Caim não foi, nem os construídos por Salomão no monte das Oliveiras para suas esposas, nem o de Baal erigido no Carmelo.
A “salvação” e o culto verdadeiro vêm dos judeus. Dos judeus porque eles receberam a Revelação divina. Os preceitos do culto aceitos pelo Criador foram ensinados aos descedentes de Abraão. Jesus é o rebento de Davi, o filho de Israel. É o tabernáculo de Israel em Jerusalém, o local da habitação divina por séculos.
Muitos cristãos por não entenderem essa dualidade (espírito e verdade) do culto bíblico-cristão afirmam que a única coisa que importa é a intenção no culto. Esses advogam que importa adorar em espírito. Mas se esquecem que o espírito divino é o Espírito da verdade (Jo.15:26). Ignoram os preceitos da lei e os mandamentos de Jesus. Para tais os rituais do santuário são sem valor.
Por outro lado, há aqueles que  igualam à lei aos ritos litúrgicos. O resultado é que tais pessoas enfatizam que a adoração verdadeira tem que seguir a verdade (óbvio). Mas tal grupo também ignora o outro lado ao se isolarem com apenas um aspecto do culto indicado por Jesus. Esquecem que os ritos têm o objetivo de transformar o espírito humano por meio do divino, e que nenhum esforço humano pode trazer tal transformação.
E daí?
Deus é espírito e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.” A resposta de Jesus a samaritana naquela manhã merece mais de nossa atenção. Talvez por causa de nossas firmes ideias achamos que sabemos de tudo o que o culto verdadeiro envolve. Por causa de nossas tradições fechamos nossa mente para a amplitude que envolvem os conceitos de adoração, inclusos no discurso de Cristo.

E se explorarmos mais essa dualidade de espírito e verdade? O que aconteceria com o nosso culto? Abraçaríamos prostitutas que não fazem parte de nosso grupo, como Jesus fez naquela manhã? Apresentaríamos o santuário como contendo a verdade, como também fez Cristo?
A riqueza da doutrina do santuário celestial, da atual mediação de Jesus, do cumprimento das profecias e ritos na Cruz são a base do Adventismo. Mas suas lições para o culto de hoje ainda não foram completamente exploradas. Como líderes de igreja e estudiosos da Bíblia devemos explorar mais a relação entre esses conceitos e a praticidade da liturgia em nossas congregações.
O que significa a vinda de Cristo na minha Santa Ceia? E no rito do batismo? E nas letras de música que cantamos? Ao invés de continuarmos com as nossas manias litúrgicas sem entendermos o porquê delas, devemos examiná-las e assim, trazer maior significado ao culto. Quando os líderes locais aplicarem os princípios de Jesus (Jo.4:23,24) à liturgia semanal, a igreja experimentará o que o autor de Hebreus exprime – algo superior.

Minha oração é a mesma de Paulo, que diz “Ora o Deus da paz, que tornou a trazer os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor de ovelhas, pelo sangue da aliança eterna, vos aperfeiçoe em todo o bem, para cumprirdes a sua vontade, operande em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja glória para todo o sempre. Amén!” (Heb.13:20,21)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Adoração no exílio

lição 10 - Adoração: Do exílio à restauração

Adoração, templo e exílio. A ligação entre esses temas é o objeto de estudo da lição dessa semana. Como vimos em estudos anteriores, culto é uma interação entre dois seres, um divino e outro humano. Nessa interação comunicativa os dois respondem (reagem) à ação do outro. Ao mesmo tempo os homens respondem a manifestação do Criador. O Senhor Deus age conforme as ações humanas. Compreendendo essa interação entenderemos o papel da lei e do sacrifício no santuário e no exílio.

Idolatrando em Jerusalém

Por ocasião da saída dos descendentes de Abraão do Egito, o povo de Deus se torna uma nação de sacerdotes (Ex.15). Como vimos nas duas primeiras lições há diferenças marcantes entre o culto Israelita antes do santuário e o culto pós-santuário. Mas há semelhanças essenciais do altar e do sábado, como também já estudamos.

Esses dois elementos, altar e sábado, ensinavam Israel que o culto verdadeiro era oferecido ao Criador pelo que Ele fez, faz e fará. O foco do sábado e do altar são as ações divinas e não humanas na salvação do mundo. Relacionando a criação primordial, o sábado lembra o adorador de sua existência, e em relação a nova criação, sua dependência.

Como também já vimos no estudo do Êxodo, a libertação ocorre por causa da adoração verdadeira. Deus se revela a Moisés, pedindo que este informasse faraó que Israel precisava sair para “adorar”. O Senhor fere com pragas a natureza que simbolizava os deuses africanos, deixando claro quem era o verdadeiro Deus. E ao mesmo tempo ensina o esquecido povo de Israel que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó era o Senhor.

Esse evento foi tão marcante na cultura Israelita, e nos que escreveram a Bíblia, que ele se torna paradigmático. Os exílios e libertações que se seguem refletem essa mesma história de esquecimento por parte de Israel, idolatria, pragas divinas, libertação e construção do templo.

Por duas vezes, uma à primeira geração do Egito, e outra à segunda depois de quarenta anos, Moisés ensina a Israel o relacionamento divino-humano. Em Lev.26 e Deut.7 e 28 encontramos os mais detalhados ensinos sobre o regimento do relacionamento entre Deus e Israel. De acordo com tais textos, o culto é elemento chave (Lev.26:1; Deut.7:4 e 28:14).

Israel deveria tomar cuidado em não voltar à idolatria, como no passado quando escravos. Eles deveriam lembrar que o Senhor era o único Deus, o qual os livrou do cativeiro no Egito e ofereceu terras de abundância. Aos que continuassem a adorá-lo, bênçãos sem medida seguiriam naturalmente, pois eles estavam com o Deus da vida (Lev.26:3-13; Deut.7:12-24 e 28:1-13).

No entanto, logicamente, os que voltassem às práticas idolátricas do Egito receberiam o contrário (Lev.26:14-46; Deut.28:15-68). O culto era, portanto, central nessa equação. Se os Israelitas adorassem o deus errado, coisas erradas resultariam em suas vidas. Se escolhessem o Deus certo, coisas boas ocorreriam.

Ah se nosso relacionamento no Grande Conflito fosse sempre assim, preto no branco! Mas o resto das Escrituras mostram que há exceções (e.g. Jó, Daniel, Ezequiel, Jesus, Pedro, Paulo). Não é nosso interesse nos focar na exceção, mas na regra.E a regra é clara, já dizia Arnaldo Cesar Coelho.

De acordo com essas passagens, o culto verdadeiro garantiria vida aos Israelitas. O que nos interessa ainda mais nesses textos é a progressão das punições, encontrada mais claramente em Levíticos. Nele há uma cadência de quatro 7 (“sete vezes mais...”). Na cadência dos 7 Deus explica que o motivo da punição é redentivo. Após a primeira aflição de doenças (contraste com Ex.15:26) vem a primeira intensificação das maldições:

Se ainda assim com isto não me ouvirdes, tornarei a castigar-vos sete vezes mais por causa dos vossos pecados.” (v.18)

E assim por quatro vezes (Lev. 26:18,21,24,28). Vem a doença, a seca, perseguição dos animais, espada inimiga, a fome e por fim o exílio. O mesmo ocorre sem a sequência dos sete em Deut.28. O exílio é o ápice das maldições contra a idolatria. Ela é o último castigo contra a desobediência à salvação oferecida pelo Criador por meio do sábado e do sacrifício no altar.

Lev.26:34 informa ainda que apenas com o exílio a terra descansaria como o homem no sábado semanal, ecoando a linguagem dos anos sabáticos de Lev.25. Esdras, ao registrar após o cativeiro o exílio, faz essa conexão (IICr.36:21) juntamente com a profecia de Jeremias. Em Jeremias 25:12 e 29:10 Deus informa que o cativeiro Babilônico duraria 70 anos (7 – sabático x 10 – completo).

Ao investigar o contexto das profecias de Jeremias observamos que a razão do cativeiro é a mesma de Lev.26 e Deut.28, a idolatria e desobediência às leis do Criador, principalmente a quebra do sábado. Jer.25:4-7 deixa claro que a idolatria e a rejeição dos profetas enviados por Deus para advertir Israel dos seus pecados (II Cr.36:16) causou o exílio em Babilônia e a destruição do templo em Jerusalém.

Apesar dos rituais oferecidos no templo, dos muitos sacrifícios no altar, a vida dos adoradores não estava transformada pelo amor de Deus. Seus corações não estavam circuncidados do mal (Lev.26:41 e Deut.10:16). Não bastava a aparência. Na adoração verdadeira, a humilhação perante Deus é completa pois tudo vem dEle, o altar, o fogo, o sacrifício. Mas Israel havia esquecido como muitos hoje. E assim o templo divino, usado para idolatria ritualística, fora destruído por Nabucodonosor.

Adorando em Babilônia

Como o livro de Ezequias mostra, por causa da idolatria de Israel a glória do Senhor abandona Jerusalém. A cidade é desolada, sem o rei da glória para trazer paz a terra. A glória divina abandona Jerusalém, mas não Israel. Deus segue o seu povo mesmo no pecado do cativeiro. A glória que antes enchera o tabernáculo Mosaico, o templo Salomônico, agora enche a terra da Babilônia, que se torna o santuário (Ez.11:16).

Que maravilhosa descrição! O homem pode abandonar a glória divina, mas ela não desiste do pecado humano. Israel pode quebrar sua aliança com o Deus de Abraão e Davi, contudo a fidelidade do Senhor é grande e sua misericórdia dura para sempre. Os Israelitas no cativeiro acusaram Deus de os ter abandonado. Porém: “Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a esquecer dele, eu todavia, não me esquecerei de ti.” (Is.49:15)

No cativeiro Deus se torna um santuário para o Israel de Jerusalém em ruínas. Para os que tem sede, Deus se torna água. Para os que são órfãos, Deus se torna Pai. Para os culpados, Deus se torna pecado. Para os condenados, Deus se torna justiça. Em Cristo tudo o que não temos e o que não somos se torna real. Tudo o que precisamos em nossa situação de exílio nos é garantido por Jesus. “Lhes servirei de santuário.”(Ez.11:16)

Com a glória em Babilônia, Israel poderia adorar. Ao contrário do Deus Babilônico, o Criador não se limita a construções e ações humanas. A glória divina habita onde quer e quando desejar. Por ocasião do exílio Babilônico a glória de Deus acompanhava os exilados, o triste, porém, é que nem todos exilados acompanhavam a glória. Mesmo com os profetas e a história ensinando seus erros, muitos Israelitas no exílio continuaram em sua apostasia.

No entanto nem todos esqueceram a glória de Deus e a verdadeira adoração. Daniel 1 e 3 mostra que mesmo em Babilônia podemos adorar ao Criador. O quarto elemento na fornalha exprime a verdade de Ez.11:16, Deus estava com Seu povo. A presença de Deus não apenas protegia fisicamente como também em revelações especiais protegia o futuro de Israel contra a idolatria.

Foi no exílio que Daniel e Ezequiel receberam visões sobre o tempo do fim. É no exílio que os fundamentos proféticos da vinda do Messias são estabelecidos. E o Messias tem tudo a ver com adoração e cativeiro. É Ele quem nos livra do pecado e merece toda honra e louvor. O conhecimento das profecias acerca da atividade Messiânica (Dan.7-9) é de fundamental importância à adoração dos exilados.

O homem pode abandonar a glória divina, mas ela não desiste do pecado humano.

A promessa que Deus libertaria Seu povo, que o santuário seria restaurado e que o pecado terminaria é motivador ao adorador. A segunda visão de Daniel é dada em linguagem dos sacrifícios no santuário, mas especificamente do dia da expiação (o juízo). Pois apenas nessa festa o bode e o carneiro eram oferecidos juntos (Lev.16). É nessa visão que a base da doutrina Adventista é dada (Dn.8:14).

Em resposta à visão Daniel ora à luz da profecia de Jeremias. Fazendo as contas, os 70 anos para a restauração estava perto, e como Deus pedira (Jer.29:12,13), ele orava por intervenção divina. Em sua oração (Dan.9) ele reconhece que fora a idolatria e desobediência aos profetas que causara o cativeiro. Ele pede perdão e clama por misericórdia. Isso é adoração verdadeira no exílio.

E Deus responde o culto oferecido por Daniel na hora do sacrifício (Dan.9:21). Como Daniel podemos/devemos oferecer nossos sacrifícios de oração ao Senhor que habita no verdadeiro tabernáculo no céu (Rom.12:1,2 e Heb.4:16), porque também estamos em exílio. A reposta divina é uma das mais importantes profecias da Bíblia, a data da vinda do Messias, a razão da verdadeira adoração. Ele viria para cumprir todo o significado dos sacrifícios outrora oferecidos (Dan.9:24 e 26).

No contexto do ano sabático de Jeremias 29 e os 70 anos de cativeiro por causa da idolatria, o anjo revela a vinda e morte da imagem suprema de Deus, Seu Filho. Se o cativeiro foi 70 anos, o período de misericórdia é 7 vezes 70 = 490 anos. Assim como Deus intensificou por 7, quatro vezes, a pena do pecado em Levítico, agora Ele multiplica por 7 a Sua misericórdia. Mas não apenas 4 vezes, mas 7x70. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. E isso é extremamente importante na adoração verdadeira.

O conceito da salvação pela graça é central no culto verdadeiro. Como já vimos, isso já vem sido ensinado desde o Éden por meio do sábado e do altar. O Messias une esses dois elementos do culto em Si, o sacrifício e o nosso descanso. Em Cristo a verdadeira adoração é alcançada. Daniel 8 e 9 se tornam assim chaves na adoração verdadeira dos cativos.

De volta a Jerusalém?

Alguns anos depois da revelação de Daniel 9, Israel volta a Jerusalém e o templo anos depois é restaurado, como prometido. O Messias vem, a glória do Senhor enche o templo (Luc.2), porém muitas pessoas continuaram ainda sem entender o que significava adorar em espírito e em verdade. Esdras, Neemias, Ageu, Zacarias, Malaquias e finalmente João Batista continuaram a advertir o povo de Deus de seus falsos costumes na adoração.

É verdade que eles estavam de volta à cidade de Jerusalém, mas não convertidos ao Senhor da cidade. Sacrificavam animais mas não seus pecados. Ofereciam ofertas mas não suas vidas. E isso fez com que acabassem crucificando o Messias. Apegados ao templo e seus rituais, como seus antepassados no tempo de Jeremias (Jer.7:1-15), rejeitaram Aquele que santificava o templo e dava significado ao culto.

E por isso, como determinado, o templo foi destruído e eles foram espalhados pela terra, agora não mais babilônia, mas Roma. Porque mesmo em Jerusalém eles adoravam como em Babilônia. Não corremos nós o mesmo risco? Como Adventistas não veneramos imagens, nem guardamos o domingo como Roma/Babilônia atual. Mas será que temos esquecido Aquele que dá todo o significado ao nosso culto? Será que tenho feito Deus a minha imagem e não o oposto?

Como no tempo de Daniel estamos em cativeiro. Babilônia reina na terra. Mas temos acesso ao santuário celestial como o profeta. Em resposta Deus tem enviado não apenas um anjo, mas 3 mensagens angélicas nos advertindo sobre Sua vinda, o juízo e o culto verdadeiro (Apoc.14:6-12). Como Daniel devemos abandonar a dieta, os deuses e os costumes de Babilônia. Olhando para o santuário no céu, onde nosso Sumo Sacerdote intercede, devemos rogar incessantemente por livramento.

Livramento de nossos pecados, livramento de nosso povo do exílio desse mundo. Confiando nas profecias e promessas reveladas por Deus, devemos confiar que o livramento está próximo. É nosso dever “buscar de todo o coração” (Jer.29:13). Já é tempo de uma reforma e reavivamento em nossa vida e nossas igrejas. O Senhor espera ansiosamente por nossa súplica.

Os 70 anos de cativeiro já terminou. Abandonaremos nossos ídolos e nos doaremos por completo ao Messias? Confessaremos nossos pecados e suplicaremos com fé por nosso livramento? Ou ficaremos em Babilônia um pouco mais? Templo, adoração e exílio. Estamos na última vez que essa sequência se repetirá. As lições do passado estão a nossa disposição. Cabe a nós aprender com ela e sair dessa vez vitoriosos.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Idolatria e ritualismo

Lição 8 –Conformidade, concessões e crise na adoração

Introdução

Voando pelo meio do céu três anjos proclamam com urgência a todos os habitantes do planeta. Como uma mãe prestes a perder seus filhos para o cigarro, Deus grita, e repete o caminho da vida. “Temei a Deus e daí-lhe glória...” Em lágrimas o Criador chama e clama pelos Seus filhos, “sai dela povo meu”, e desmascara o engano, “Caiu Babilônia...”, que Satanás criou para destruir a quem Ele tanto ama.

A mensagem de Deus em Apocalipse não é nova. Desde do Éden ela tem esse timbre. Na visão do grande conflito há apenas dois caminhos, a árvore da vida (“temei a Deus e daí-lhe glória”) ou a árvore do conhecimento do bem e do mal (“caiu Babilônia”). Um oferece eternidade de prazer com Deus e o outro “tormento pelos séculos dos séculos”.

A princípio eles parecem bem distintos, e são. Mas Satanás com seus enganos usa da mistura e falsidade para iludir os habitantes da terra. Como a Eva, ele apresenta aos filhos de Deus uma alternativa parecida com a do Criador. Ao mesmo tempo algumas vezes sua oposição ao Criador é clara. Sobre essas duas opções de inimizade contra Deus, sobre essas duas formas de oferecer glória à Satanás que gostaria de refletir, em contraste com a glória oferecida ao Criador.

Os dois caminhos

Ao criar, “tudo fez Deus formoso no seu devido tempo, e colocou a eternidade no coração do homem”. (Ecl.3:11) Coisa algum pode completar a criação sem o Eterno. Mas com Deus, a eternidade permite a humanidade desfrutar “todas as árvores do jardim”. As variedades e possibilidades que o Criador disponibilizou aos homens é eterna, motivando mais e mais seu desenvolvimento.

Mas os planos de Satanás são outros. Fim, e não eternidade foi introduzido pela serpente no jardim. E desde daquele dia fatídico lutamos com o sentimento do eterno dentro de nós sem poder preenche-lo. Por que? A morte reinou desde Adão e com a morte o sonho da eternidade virou pesadelo. Porém, o Criador não poderia deixar seus filhos sem esperança. Deixou a eternidade dentro deles para que desejassem algo mais que suas vidas de pecado, que escolheram.

A eternidade foi oferecida no altar e no sábado. Na adoração verdadeira a criatura reencontra seu plano original e seu Planejador. No sábado o homem beija a eternidade como um noivo por um véu a sua amada. No sacrifício Deus lampeja eternidade como que raios numa chuva. No dia santo o tempo pára, os esforços humanos também. É tempo divino, é Deus presente. O “Pai da eternidade, o Príncipe da paz” reina trazendo o Éden ao pecador.

Na cruz o Eterno morre, o pecado também. A eternidade sofre, mas no primeiro dia vence. A ressurreição gloriosa de Jesus garante o triunfo da eternidade sobre a morte. Não mais levantará o pecado. “Está consumado”, foi o brado do Filho de Deus. Assim, por meio do sábado e do altar Deus continua a instigar a eternidade que deixou dentro do coração de cada um de nós.

Esses dois elementos que trazem a eternidade são a base da adoração verdadeira, que já estudamos anteriormente. Contra esse modelo eterno, através da história percebemos o alternativo diabólico. Percorrendo desde o altar de Caim, a torre de Babel, os altares de Ur, Egito e Babilônia, os falsos messias, reis e sacerdotes corruptos lideraram e ainda lideram o culto falso.

As falsas alternativas possuem uma mesma característica, oposição ao Criador de Gn.1 e a eternidade divina. Para Eva a serpente usou o contraste, “certamente não morrerás”. Já para seu filho Caim ele usou a semelhança, “trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor.” Para os egípcios e babilônicos a serpente iludiu com muitos deuses. Em Israel ela iludiu com muitos ritos.

Percebo que há dois tipos de falsidade que Satanás tem usado para remover a eternidade do coração do seres humanos. Vou chamá-las de idolátrica e ritualística. Essa nomenclatura é uma tentativa de entender como a Bíblia descreve as falsidades no culto. Elas possuem bastante similaridades e uma mesma base. No entanto têm características distintas. Ao analisarmos pelos exemplos bíblicos veremos como evitá-los ao contrastarmos com o verdadeiro.

Os enganos idolátricos

A idolatria é a substituição de ícones mentais e físicos na adoração verdadeira. A princípio Satanás não disse a Caim que Deus não existia e que o Éden era um mito. Mesmo porque era auto-evidente tais fatos, ele morava na porta do jardim com dois anjos, como seu pai Adão o contara. A existência de Deus, o altar do Senhor eram partes bem vivas em sua vida. Elas integravam sua visão de mundo.

A mudança de imagem

O erro de Caim foi interpretar os ícones de forma errada. Patriarcas e Profetas esclarece que Caim via a Deus como que um tirano malvado, sem amor e compaixão. Como poderia Ele os ter tirado do paraíso?! Com as imagens deturpadas seu culto foi afetado. Ele não trouxera completamente o que Deus pedira, em rebelião oferece o que quer.

Muitos cristãos hoje possuem essa mesma experiência. Enxergam Deus de uma forma deturpada, não como a Revelação ensina. Como cresceram no cristianismo, oferecem suas ofertas com tom de rebelião, pois ao olharem para o Éden enxergam mais a pena que a promessa. Como Caim eles precisam de uma clara compreensão de quem é Deus e porque Ele age como age. O Senhor marca a Caim e o protege com misericórdia para o ensinar quem Ele verdadeiramente era.

Mas a idolatria não se limita à substituição de ícones mentais (visões de mundo). Ao mudar o conceito de Deus, a forma do culto é alterada. Caim não trouxe o animal. O altar era o mesmo, mas a oferta não. Em Canaã templos foram achados com muita similaridade ao Israelita. Ritos em Babilônia, Egito, Grécia e Índia se assemelham bastante ao culto do santuário do Criador. Mas as modificações fazem toda a diferença.

Para muitas culturas do Oriente Médio Antigo Baal era o deus do céu, criador do universo. Até aqui nenhum problema. Até o Senhor de Israel possuía o mesmo nome e atribuições. Porém, o Baal cananeu possuíam esposa, filhos, e uma sede por sangue. Sem sacrifícios oferecidos pelos homens ele se irava através de catástrofes naturais.

Veja a progressão. O conceito de Deus muda, as imagens divina são alteradas e com eles os ritos. No livro de Êxodo observo essa progressão (ou regressão). Nos capítulos 1 e 4 é descrito que Israel esqueceu quem era o Deus de Abraão. Por causa do esquecimento eles facilmente constroem um bezerro de ouro em Ex.32.

No tempo de Jeroboão o mesmo ocorre. Não era apenas um bezerro mas dois, um em Dã e outro em Betel, um no norte e outro no sul. Até as festas, sacerdotes e rituais era semelhantes ao templo verdadeiro em Jerusalém. O problema de tal religião é que não era a que Deus havia revelado. Substituíram mandamentos divinos por imagens humanas. Isso porque Salomão anteriormente edificara dezenas de altares aos deuses de suas milhares de esposas estrangeiras.

Quando Elias nasce, o conhecimento verdadeiro do Criador estava quase que morto. O altar divino estava em ruínas no Carmelo, escondido numa montanha pegando poeira. Babilônia por meio do Catolicismo sofreu o mesmo processo. Começou mudando o conceito de Deus de temporal para atemporal. O próximo passo era a mudança dos ritos. Estátuas em grandes catedrais de pedra ofereciam salvação por meio do clero. Com o altar verdadeiro sendo esquecido, pouco a pouco o cristianismo é corrompido e transformado.

A vacina

Contra esse progresso de engano Deus indicou aos Israelitas o ensino da lei. Em Deut.6, logo após a repetição do decálogo, o Senhor oferece o antídoto contra a idolatria. “Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as encucarás a teus filhos e delas falaras assentado em tua casa e andando pelo caminho e ao deitar-te e levantar-te. Também atarás como sinal na tua mão...e as escreverás nos umbrais da tua casa e nas tuas portas.” (v.6-9).

Quando gastamos tempo com o que Deus revelou, quando meditamos do que Ele fez, quando lembramos do sábado a idolatria passará longe de nossa casa. Devemos gastar mais tempo com a revelação divina. Saturar nossas crianças com o conhecimento do Altíssimo para vaciná-los contra os enganos mortais da serpente.

O ápice da idolatria

A idolatria possuí um outro nível. Inicialmente Satanás usou elementos divinos para introduzir seu engano. Ao deturpar a figura do Criador ele substitui por completo o culto verdadeiro pelo falso. O Salmista descreve a atitude desses idólatras, “Diz o insensato no seu coração, não há Deus. corrompem-se e praticam abominações.” (Sal.14:1).

pois ao olharem para o Éden enxergam mais a pena que a promessa.

Em uma descrição dos idólatras parecida, Paulo em Romanos 1 afirma que tais “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível.” (v.23) A criação que deveria exaltar o Criador é usada para glorificar suas paixões. O evolucionismo ao olhar para natureza sem a figura do Deus de Gênesis, glorifica a “criatura (natureza) em lugar do Criador”.(v.25) Esses se tornam “nulos em seus próprios raciocínios”(v.21) e como Caim oferecem o que desejam e não o que Deus revelou, pois a visão que possuem de Deus é deturpada.

Note que ao deturpar a imagem de Deus, Satanás criou idólatras por meio do ateísmo e do politeísmo. Ambos os caminhos negam o caráter do Criador e a origem do pecado. Por conseqüência esses interpretarão o sofrimento, o mal e a morte de forma bem diferente. Caim viu o mal como culpa de Deus, Abel como sua. O evolucionista olha para os erros como processo natural, o Adventista criacionista como sua escolha errada. Tais prestarão cultos bem distintos.

Os enganos ritualísticos

Esse tipo de engano é bem caracterizado por Paulo em I Tim. 3:5, “tendo forma de piedade, negando entretanto o poder.” Esse tipo de engano se desenvolve no primeiro estágio do engano idolátrico mencionado acima. Satanás não muda aparentemente os ritos, nem os nomes Revelados. Nesse modelo, o Senhor Deus de Israel, Criador dos céus e da terra, continua sendo o único Deus; O templo o local de culto; o altar, o local do sacrifício.

Tendo a forma, mas não o poder. Tal engano é mais perigoso e difícil de ser identificado pois aos olhos humanos ele não parece errado. Porém aos olhos de Deus sua iniqüidade é clara. Os profetas gastam talvez mais tempo nesse tipo de engano que no idolátrico. Is.1 e o livro de Malaquias, junto com Mt.23 são ótimas fontes de conhecimento sobre tal engano, que não acontece fora mas dentro da igreja.

De que serve a mim a multidão de vossos sacrifícios?...quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheia de sangue.” (Is.1:11,15) “Cobris o altar do Senhor de lágrimas, de choro e de gemidos, de sorte que ele já não olha para a oferta, nem aceita com prazer da vossa mão. E perguntais por quê? Porque o Senhor foi testemunha da aliança entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal.”(Mal.2:13,14) "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tendes omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a injustiça, a misericórdia e a fé; estas coisas, porém, devíeis fazer, sem omitir aquelas."(Mat.23:23)

O que podemos perceber é que tal engano enfatiza tanto a atenção da experiênciareligiosa nos rituais que apontam para Cristo, que nesse esforço esquecem o próprio Cristo. PErceba que Jesus não rejeitou o que eles faziam, mas o que deixava de fazer. Não é a música que tocava na igreja que era errada, nem o tipo de sermão, mas a vida fora da igreja que não autenticava o que diziam dentro dela.

Minha sugestão é que o debate de adoração que ocorre hoje na igreja Adventista tem suas raízes nesse engano. A nova geração de Adventista ao ver os “antigos” líderes com máscaras na igreja e fora delas não aceitam tal religião. Em sua sinceridade a juventude ignora no entanto que o problema não é o que eles fazem, mas o que deixam de fazer. Mas, infelizmente, muitos saem da igreja achando que é o culto “antigo” que está errado e inapropriado.

Vendo tudo isso está Satanás festejando a divisão e inatividade da igreja que “tendo a forma de piedade [nega] o poder”. Que triste! Em contrapartida o inimigo cria movimentos aparente com muito “poder” afim de atrair os fugitivos de tal guerra na igreja verdadeira. Falando muito do Espírito, de cura, do amor, tais igrejas cristãs erram mais pelo que omitem que pelo que fazem. Tais reavivamentos em sua maioria não são produzidos pelo Espírito das Escrituras, mas o fogo é provocado pela Besta.(Ap.13:13)

Tendo a forma, mas não o poder. Tal engano é mais perigoso e difícil de ser identificado pois aos olhos humanos ele não parece errado.

Evolucionismo teísta, santificação do domingo, dons de línguas apenas para exaltação própria, promessas de ganhar dinheiro sem obedecer as Escrituras fazem parte do repertório do Protestantismo apostatado. Esses (não todos), os Adventistas (descritos acima) e os carismáticos, se apegam a ritos, fórmulas religiosas, sentimento não santificados afim de obterem salvação. Esquecem que apenas o sangue de Jesus tem poder para salva-los do pecado.

Qual a cura, Paulo afirma, “fugi destes.” (I Tim.3:5). E “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nela a vida eterna, e são elas que testificam de mim”.(Jo.5:39).

Conclusão

Os mensageiros enviados pelo Criador alertam contra a falsa adoração da besta e sua imagem. Afirmam que Babilônia e seu sistema de culto está falido. Pregar tão mensagem é nosso dever como povo remanescente. Mas antes de proclamá-la devemos ter certeza que entendemos o que ela implica. Devemos examinar nossas Bíblias e vidas para que o verdadeiro Espírito produza reforma e reavivamento.

Transformados pela graça e impelidos pelo amor convocaremos o mundo para a verdadeira adoração ao Criador dos céus e da terra. "Pois vinda é a hora do Seu juízo."